dez/2023

Livro de Tarantino é ode ao cinema que o formou

Por André Barcinski

Livro de Tarantino é ode ao cinema que o formou

Por André Barcinski

O cinema é a vida de Quentin Tarantino.  Ele faz filmes sobre filmes, obras em que disseca seus gêneros cinematográficos e literários prediletos – cinema policial asiático em “Cães de Aluguel”, cinema noir e livros “pulp” em “Pulp Fiction”, faroestes sangrentos em “Django Livre”, filmes de guerra em “Bastardos Inglórios”, a obra de Elmore Leonard em “Jackie Brown”, cinema de artes marciais nos dois “Kill Bill” – e pensa cada fotograma como um tributo a algum cineasta, ator ou roteirista que admira.

O amor de Tarantino pelo cinema vai além de simplesmente dirigir filmes. Colecionador obsessivo de cópias em película de suas obras favoritas, ele usou a fortuna que ganhou no cinema para tentar formar novas gerações de cinéfilos e combater o fechamento de salas e o recente domínio dos filmes juvenis de Marvel e DC, ao comprar e reformar dois cinemas antigos de Los Angeles, o New Beverly e o Vista, e fazer a programação das duas salas, centrada em filmes clássicos e “cults”.

Quentin Tarantino não quer só fazer cinema, mas compartilhar com o maior número possível de pessoas a experiência de ver filmes na tela grande, especialmente os filmes dos anos 70 e 80 que ele viu, em sessões duplas e triplas, desde os sete ou oito anos de idade, quando começou a ver filmes adultos acompanhados da mãe, Connie, e do padrasto, o músico Curtis Zastoupil (o pai de Quentin, o ator Tony Tarantino, abandonou Connie antes de Quentin nascer). O resultado é “Especulações Cinematográficas”, uma espécie de diário dos primeiros anos de Tarantino como cinéfilo e análise de filmes, cineastas e atores que o marcaram.

A exemplo do cinema de Tarantino, seu livro é divertidamente caótico: sem uma ordem aparente, ele enfileira capítulos a esmo, falando ora de filmes, ora de diretores, e até de seus críticos prediletos (um dos capítulos mais interessantes é uma ode a Kevin Thomas, um obscuro crítico de cinema de Los Angeles que escrevia sobre os filmes B que os críticos mais renomados nem se dignavam a assistir).

O livro abre com o capítulo autobiográfico, “O pequeno Quentin assistindo a grandes filmes”, em que narra seus primeiros anos cinéfilos e o impacto de ver filmes adultos aos sete anos de idade, sem entender muito da trama, mas já impactado pela reação que imagens causavam nas plateias. Connie e Curtis levavam o pequeno Quentin para ver qualquer coisa, muitas vezes em cinemas “poeira” em que a plateia demonstrava seu apreço – ou não – pelo filme com gritos ou vaias. Essa experiência  marcou o menino para sempre.

Tarantino nasceu em 1963 e teve a sorte de ver, ainda criança e adolescente, uma época de ouro do cinema norte-americano, a chamada “Nova Hollywood” de filmes como “O Poderoso Chefão” (Francis Ford Coppola), “Taxi Driver” (Martin Scorsese), “Lua de Papel” (Peter Bogdanovich) e “O Franco-Atirador” (Michael Cimino), entre muitos outros. Mas não foram apenas esses filmes clássicos que fizeram a cabeça do menino, que enlouqueceu com obras sangrentas e explosivas como “A Outra Face da Violência”, de John Flynn, “Joe: das Drogas à Morte”, de John G. Avildsen, e “Um Homem Chamado Cavalo”, de Elliot Silverstein.

Tarantino explica com maestria a gênese e explosão da Nova Hollywood, com o cuidado de dividir os diretores daquele período em dois grupos: os cineastas antissistema e os chamados “Movie Brats” (“Pirralhos do Cinema”). Ele escreve: “Para deixar bem claro: os cineastas antissistema pós-anos 1960 eram: Robert Altman, Bob Rafelson, Hal Ashby, Paul Mazursky, Arthur Penn, Sam Peckinpah, Frank Perry, Michael Ritchie, William Friedkin, Richard Rush, John Cassavettes e Jerry Schtazberg ”. Segundo Tarantino, eram, na maioria, cineastas ligados à contracultura e com uma visão pessimista dos Estados Unidos e de Hollywood. “Os cineastas antissistema queriam refazer os filmes de John Ford, mas não da maneira que Paul Schrader e Martin Scorsese fizeram em ‘Taxi Driver’ e ‘Hardcore: no Mundo do Sexo’. Eles queriam refazer ‘Sangue de Heróis’ do ponto de vista dos apaches”.

Já os “Pirralhos do Cinema” eram de uma geração posterior, nomes como Scorsese, De Palma, Coppola, Bogdanovich, Spielberg e Lucas, assim definidos por Tarantino: “Eles foram a primeira geração de cineastas homens, jovens e brancos criados assistindo à televisão e formados em faculdades de cinema, e surgiram para definir o tom daquela década (1970) com filmes populares e estilosos”. “Especulações Cinematográficas” não se propõe a ser uma enciclopédia de cinema. É uma celebração do tipo de cinema que fez Quentin Tarantino e moldou seu estilo. Há capítulos sobre filmes como “Amargo Pesadelo” (John Boorman), “Perseguidor Implacável” (Don Siegel), “Os Implacáveis” (Sam Peckinpah), “Irmãs Diabólicas” (Brain De Palma), “Taxi Driver” (Martin Scorsese) e até “A Taberna do Inferno” (Sylvester Stallone), em que Tarantino não se limita a dar opiniões sobre o filme, mas discorre longamente sobre os diretores, atores e roteiristas, compara esses filmes a outros do mesmo período, sempre com um ponto de vista interessante e peculiar. É um livro para ver com um bloco de anotações, listando os filmes que não se conhece.

O blog entra de recesso de fim de ano e retorna em 8 de janeiro. Desejo um feliz Natal e um 2024 maravilhoso para vocês!

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