nov/2023

Crítica: “O Assassino”

Por André Barcinski

Crítica: “O Assassino”

Por André Barcinski

A Netflix exibe “O Assassino”, de David Fincher, com Michael Fassbender no papel de um matador de aluguel que acaba se tornando alvo de seus próprios empregadores.

Nada nesse filme é novo ou criativo: o enredo é claramente copiado de “O Samurai” (1967), de Jean-Pierre Melville, em que Alain Delon faz um assassino profissional que também precisa enfrentar seu patrão (e o que Michael Fassbender imita o estilo silencioso e impassível do Delon não está no gibi!)

Falando em gibi, o filme de Fincher foi inspirado por uma “graphic novel” francesa. Não conheço a HQ, mas se o roteiro do filme for alguma indicação, os personagens parecem de cartolina, não têm estofo emocional e estão ali apenas nos papéis convenientes para sustentar um fiapo de trama, que permite a Fincher desfilar seu inegável talento estético e criar cenas impactantes.

A história começa num apartamento em Paris, onde o personagem de Fassbender, cujo nome verdadeiro nunca é revelado e que troca de identidades falsas a cada cinco minutos, observa um luxuoso apartamento do outro lado da rua, onde vive um de seus alvos. O matador tem bom gosto musical e curte exterminar pessoas ao som de The Smiths. Não vou dar spoiler, mas o atentado não funciona, e o matador começa a ser perseguido pelas pessoas que o contrataram.

A trama, se é que dá para chamá-la assim, leva o personagem de Fassbender a um esconderijo na República Dominicana, onde descobre que a namorada (vivida pela brasileira Sophie Charlotte) foi atacada por outros matadores de aluguel.

Sugiro não perder tempo pensando nos rombos de lógica no roteiro, que são muitos. O esconderijo de um assassino profissional não deveria ser secreto? Como uma dupla de matadores de primeiro time não consegue dar cabo da namorada do rival? Como a sede de uma poderosa organização criminal de contrato de assassinos profissionais tem o sistema de segurança de uma doceria de interior?

Esqueça esses detalhes – o próprio Fincher parece ter esquecido – e concentre-se na maior qualidade do filme, que é a habilidade do cineasta para dirigir cenas de ação. Há uma sequência envolvendo uma casa, um pitbull e um troglodita psicopata, que vale o filme todo.

Se tivesse sido lançado em 1990 ou antes, “O Assassino” seria apenas um filme mediano dentro da carreira de um diretor que fez “Seven”, “Clube da Luta” e “Zodíaco”. Lançado em 2023, e ainda mais no streaming, o cadafalso do cinema, atinge status de grande obra. Não é Vale seu tempo, mas sem empolgação. Se quiser ver de onde Fincher tirou boa parte da estética do filme, assista a “O Samurai”.

Um ótimo feriado a todas e todos. O blog volta na quarta, dia 22.

16 comentários em "Crítica: “O Assassino”"

  • Gostei bastante do filme. Achei muito bom que, por ex., as falas do assassino o representem como alguém perfeitamente adaptado à cultura de competição do capitalismo, de individualismo extremo. No limite, é claro que essa lógica vai resultar no homicídio e na sua profissão. Nesse sentido ainda, não é à-toa que o contratante original do assassino seja um bilionário (que, aliás, bem descoladinho, usa uma camiseta da Sub Pop).
    Essa ideia de tentar representar o assassino como alguém perfeitamente adaptado ao capitalismo está lá o tempo todo: ele tem muitas milhas de viagens (“impressive”); ele define como membro dos poucos que exploram os muitos; vive uma vida de afluência em um paraíso tropical; é cliente exclusivo de bancos; conhece o consumo dos ricos (“densuke watermelon”); usa a Amazon (como uma facilidade chocante!!) para comprar um dispositivo de clonagem de cartões; etc.
    A luta na Flórida é brutal, mas há, relativamente mais preparações para homicídios que ações violentas propriamente.
    Depois do seu encontro com o bilionário, ele tem uma mudança: ele se reconhece não mais como um dos “poucos”.
    Sem querer ser chato, a crítica da Isabela Boscov é bem legal.
    Um abraço.

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    Dico27@gmail.com

    Nessa mesma linha de filmes de assassinos sem qualquer compromisso com a realidade, achei Anônimo (nobody) bem melhor que esse do fincher. Pelo menos a edição e boa e o Bob Odenkirk e o Doc de de volta para o futuro parecem estar se divertindo!

  • Fala Barcinski, tudo bem? Adoro “Seven” (mas nem tanto Clube da Luta)

    Mudando um pouco de assunto, consegui assistir “Deliverance” do William Friedkin – que você indicou aqui no blog – em uma versão horrorosa no Youtube, mas mesmo assim achei brilhante.

    A dúvida que fiquei é: o filme no qual ele se baseou ( O Salário do Medo) também é tão bom quanto?

  • Vi quarta passada e achei uma diversão, e nada mais. Um “Mercenários” com pedigree… e a cena do restaurante com a Tilda Swinton? O cara senta na mesa, é visto por 480 garçons e clientes, e 10 minutos depois mata a pessoa que estava com ele no restaurante… difícil de engolir.

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    Moacirloureiropn

    Li um crítico blogueirinho dizendo que o filme é “um dos seus melhores e mais autorais filmes do Fincher, um estudo formalista do personagem que usa bem o tédio e a introspecção”. Daí já vi que não deve ser grande coisa… Também me surpreendeu o Fincher dizer em uma entrevista que ““A Netflix adotar um padrão da indústria que faz sentido para os cineastas, pois ela tem de longe o melhor controle de qualidade em todo Hollywood.”

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    Maurilio Cesar Merli Silva

    Bom dia André
    Acho que não assistirei….
    Off topic- Acredito que a maioria dos frequentadores do blog saiba que a bio do Nelson Ned já está na praça (e na minha lista) .
    Sucesso, bom final de semana

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