nov/2023

Do Arquivo: Alguém aí viu Jaz Coleman?

Por André Barcinski

Do Arquivo: Alguém aí viu Jaz Coleman?

Por André Barcinski

Jaz Coleman está sumido. De verdade.

O líder e vocalista do Killing Joke não é encontrado há semanas. Preocupados, seus companheiros de banda acabam de cancelar uma turnê com The Cult e The Mission, e dizem estar fazendo de tudo para encontrá-lo (veja aqui a matéria do Pitchfork sobre o sumiço).

Torço para que seja apenas mais uma das maluquices de Coleman e nada mais sério que isso.

Em 2010, quando ele foi condecorado pelo governo francês com a Medalha do Cavaleiro de Artes e Letras, publiquei aqui no blog uma entrevista antiga que havia feito com ele. Confira:

O ano: 1994. O Killing Joke acaba de reformar para alguns shows nos Estados Unidos. A banda estava lançando “Pandemonium”, seu primeiro disco em quatro anos, que marcava a volta do baixista original, Youth.

Na sede da gravadora, encontro o vocalista Jaz Coleman para uma entrevista. Na mesma noite, o grupo faria o primeiro show da turnê americana, no Ritz.

Quem já viu o Killing Joke ao vivo sabe que Coleman é uma presença e tanto. É um sujeito grande, fala alto, e ilustra cada frase com algum gesto de efeito.

Dizem que ele tem um QI quase sobrenatural. Aprendeu a tocar violino aos seis anos, ganhou prêmios como cantor de coros aos 10, e não ouviu rock até os 15. Segundo o próprio, estudou finanças na Suíça e hoje é  padre numa igreja na Nova Zelândia.

Nos anos 80, prevendo o apocalipse, Jaz abandonou a Inglaterra e se mudou para a Islândia, onde conheceu alguns locais que, reza a lenda, tentavam criar uma máquina para “filtrar a energia espiritual de multidões”. Algumas dessas pessoas estavam numa banda chamada Theyr, entre elas uma menina chamada Bjork.

Além de inventar o pós-punk e criar a trilha sonora para o fim do mundo com o Killing Joke, banda que influenciou todo o rock industrial e gótico, Coleman tem um trabalho vasto como compositor clássico e gravou diversos discos com orquestras tocando músicas de Led Zeppelin e The Doors.

Coleman está animado: “O show de hoje à noite será uma celebração. Vamos bater os tambores e conclamar os espíritos de nossos ancestrais para um ritual de purificação. Vamos nos purificar de todos os sons nocivos!”

“E o que você considera som nocivo, Sr. Coleman?”, perguntei.

“Ah, tudo que ouvimos por aí hoje em dia… especialmente o britpop!”

“Britpop? É verdade que você se mudou da Inglaterra para fugir do britpop?”

“Não, na verdade eu saí da Inglaterra há mais de dez anos, quando me mudei para a Islândia e depois para a Nova Zelândia. A Inglaterra não me interessa mais há muito tempo. Tem tanta coisa melhor em outras partes do mundo.”

“O que te levou à Islândia?”

“Eu era um estudioso do ocultismo e vivia tendo sonhos com uma ilha no fim do mundo. Cheguei à conclusão, junto com Geordi (guitarrista do Killing Joke), de que aquela ilha era a Islândia. Por isso fomos para lá.”

“E a Islândia era, de fato, a ilha de seus sonhos?” “Acredito que sim. Muitas coisas boas aconteceram lá. Mas não dá pra dizer que o sonho era uma coisa literal. Hoje vejo o sonho mais como um chamado, que me incentivou a mudar de vida.”

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