Crítica: “Assassinos da Lua das Flores”
Antes mesmo de ser lançado, “Assassinos da Lua das Flores” era um filme importante. E por uma simples razão: muito provavelmente será o último longa-metragem dirigido por Martin Scorsese. Ele havia dado pistas de que encerraria a carreira depois de “O Irlandês” (2019), mas voltou atrás e decidiu dirigir esse épico de orçamento de 200 milhões de dólares, baseado num livro de David Grann sobre uma série de assassinatos de indígenas da tribo Osage, no estado norte-americano do Oklahoma, na década de 1920.
Alguns anos antes, os Osage descobriram que, por baixo de suas terras áridas, havia oceanos de petróleo. De um dia para o outro, a tribo, que havia passado décadas sendo expulsa de outros locais, se tornou riquíssima.
Com a fortuna, veio a ganância de homens brancos que queriam parte daquela riqueza. E um deles se destacou pela tenacidade e violência: William “King” Hale, um chefão político local. Hale descobriu que, se os seus parentes se casassem com indígenas e estes viessem a morrer, os Hale herdariam as terras e, por consequência, os royalties do petróleo. A solução? Matar os indígenas.
Li o livro de David Grann, lançado em 2017, e gostei bastante. Lembro que achei fascinante a história dos Osage e de como ficaram ricos com a descoberta de petróleo em suas terras. Foi surpreendente ler sobre indígenas que haviam passado décadas sendo escorraçados e, subitamente, se tornaram as pessoas mais abastadas do país.
Os crimes, por sua vez, não me interessaram tanto. Ficava óbvio, desde o início do livro, que Hale era o responsável pela matança e que ele só havia conseguido levar a cabo seu plano devido aos conluios com os representantes locais da lei. O estado do Oklahoma em 1920 era uma terra de ninguém, e os governos, tanto o estadual quanto o federal, não estavam nem aí para alguns índios que morriam em circunstâncias inexplicadas.
O problema central de “Assassinos da Lua das Flores”, o filme, é que ele trata da parte menos interessante do livro, que é o aspecto policial. Toda a fascinante história dos Osage é contada em uns oito ou dez minutos, por meio da recriação de um cinejornal da época que mostra os indígenas achando petróleo e, depois, desfilando em carrões de luxo dirigidos por motoristas brancos. Os outros 200 minutos do filme – sim, é longo pacas – são dedicados a uma trama policialesca que não tem surpresas ou emoção.
Robert De Niro faz William Hale, e Leonardo Di Caprio interpreta seu sobrinho, Ernest Burkhart, um veterano da Primeira Guerra que chega ao Oklahoma para trabalhar com o tio e logo recebe a missão de cortejar Mollie Kyle (Lily Gladstone), uma Osage cujas terras valem uma fortuna. Ernest ganha um troco praticando assaltos contra os indígenas e depois passa a auxiliar o tio nas tramas para eliminá-los. Tudo isso enquanto ganha o coração de Mollie e se casa com ela. Os indígenas começam a morrer aos montes: uns a tiros, outros envenenados. Mollie teme pela família, mas não percebe que o próprio marido está envolvido nos crimes.
Mortes, assassinatos e traição marital. Parece uma trama excitante, não? Quem viu “Os Infiltrados”, do mesmo Scorsese, filme que tem dois personagens vivendo “vidas duplas” – Leonardo DiCaprio posando de bandido, Matt Damon infiltrado na polícia – lembra a tensão e surpresas daquela história.
Infelizmente, toda a emoção prometida pelo enredo de “Assassinos da Lua das Flores” não se concretiza, e a trama se arrasta, tediosa, em direção a uma conclusão óbvia e cheia de clichês. O roteiro, escrito pelo próprio Scorsese com Eric Roth (de “Forrest Gump” e muitos outros), sofre do chamado “Mal de Nolan”, em que TUDO é explicado e reexplicado incontáveis vezes. Um personagem diz o que vai fazer e por que vai fazer aquilo, e então a coisa acontece. Não há surpresas ou reviravoltas. Perdi a conta de quantas vezes o personagem de De Niro explica para DiCaprio como as mortes dos indígenas enriqueceriam a família Hale. Tudo bem que o personagem de DiCaprio é uma das criaturas mais burras da história do cinema, mas até uma cavalgadura como Ernest Burkhart entenderia a explicação, se repetida quatro ou cinco vezes, como ocorre no filme.
O problema de Ernest não é ser burro, mas desinteressante. O personagem é incapaz de ter uma atitude ou pensamento diferente do que esperamos dele. O Hale de Robert De Niro também é fino como cartolina, um vilão de desenho animado, sem nuances ou profundidade. Só faltou o tapa-olho e a risada maléfica.
E assim o filme segue, se arrastando como uma lontra, os assassinatos dos indígenas se sucedendo, até que alguém resolve tomar uma atitude e a lei finalmente confronta William Hale. Não há uma cena em todo o filme que não seja absolutamente previsível e que não tenha sido adiantada antes por algum diálogo. Se Hale aparece tramando a morte de alguém, a pessoa morre na cena seguinte.
E os diálogos? Na ânsia de criar um texto IMPORTANTE como o tema do filme, Scorsese apela aos instintos mais piegas e melosos. Há uma conversa entre Ernest e Mollie que se sucede assim:
Ernest: Você tem uma cor de pele bonita. Como chama?
Mollie: a MINHA pele.
Dá para ver a cara de satisfação de Scorsese e Roth pensando no Oscar que ganharão.
O final do filme é – e me dói dizer isso, já que sou muito fã de Scorsese – um dos momentos mais apelativos da carreira do cineasta. Não darei spoilers, mas posso dizer que o próprio Scorsese surge na tela, numa sequência inteiramente dispensável e que parece ter sido pensada só para que o público pudesse aplaudi-lo ao final da sessão (e a longa ovação em Cannes mostra que o truque deu certo).
Enfim, “Assassinos da Lua das Flores” é muita fumaça para pouco fogo. Scorsese é um gênio e figura em qualquer lista dos grandes cineastas de todos os tempos, mas sempre fez filmes com personagens inesquecíveis e tramas impactantes. Este, infelizmente, não tem nada disso.
18 comentários em "Crítica: “Assassinos da Lua das Flores”"
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Concordo com vc! Filme arrastado demais!
É o tipo de texto que , infelizmente,, veremos cada vez menos. Longa vida ao Blog!
Valeu!
Barça, li não me recordo em que site de notícias, que, a partir do momento que a PRIME passou a bancar o projeto, “determinou” alterações no roteiro, porque antes dela o enfoque de Scorsese era outro. Não sei se isso é verdade, mas, de fato, se alguém “deu” 200 milhões para o filme ser feito, ainda mais sendo uma plataforma de streaming, esse alguém ia apitar muito no produto final, independente de ser o último filme de um diretor mitológico ou não.
Não foi o que li. DiCaprio iria, originalmente, interpretar o policial que é enviado pelo FBI para investigar os crimes, e a trama do filme seria focado nessa investigação. Mas ele pediu para fazer o sobrinho do De Niro, e o foco mudou para o romance dos dois.
Pelo que li, a principal mudança no roteiro, depois da entrada dos financiadores, foi que Scorsese pretendia narrar a história do ponto de vista dos indígenas e que essa, digamos, mudança de enfoque teria sido uma “imposição” dos donos do dinheiro. Mas creio que nunca saberemos se isso de fato ocorreu, o que é uma pena! O que temos é o filme que está aí e pelo jeito você não gostou nada dele…
Repito (está na entrevista do Scorsese na “New Yorker”): não houve interferência nenhuma dos financiadores, foi uma decisão do próprio Scorsese, porque o DiCaprio quis interpretar o marido da indígena, e o Scorsese decidiu tirar um pouco o foco da investigação policial para centrar no romance dos dois.
Barça, me desculpe a insistência, mas o que comentei não tem relação nenhuma com a matéria da New Yorker. Infelizmente não me recordo o local em que li isso, mas convenhamos, se a “imposição” de fato ocorreu, o que não sabemos, nunca que o Scorsese o admitiria em uma entrevista. De concreto o que temos é o filme que está nos cinemas e, assim como você, eu também não gostei muito dele! Abraço e bom final de semana!
Então por favor, peço que vc ache onde leu isso. Não estou dizendo que isso nao ocorreu, mas que não li uma frase sobre isso em nenhum lugar. Estou argumentando com fontes reais e confiáveis, é uma entrevista do Scorsese pra “New Yorker”. E você acha que o Scorsese, nessa fase da vida, vai deixar que um streaming diga a ele como fazer o filme dele? Não acho. Abraço.
André, realmente hoje em dia tem que ter muita coragem para criticar a “Vaca Sagrada” que virou o Martin Scorsese, e botar esse filme na perspectiva de que, na minha opinião, ele é bom (apesar de muuuuuito longo), mas dentro da obra martiniana, ele estaria na Série B de seus filmes, quase caindo pra C…
Acho dos piores filmes dele.
Cara, gostei do filme. Achei o contrario do que você apontou: para mim a solução dos crimes não é importante, considerando o quão obvio era o quadro. O que me prendeu mais é que mesmo sendo evidente que o personagem do Di Caprio era um interesseiro, a impressão que tinha é que o amor entre ele a personagem do Gladstone era real. E o final, com aquele programa de radio reconstituindo o caso, com aquele tanto de manipulação para guiar a audiência e com o aplauso final, achei que é mais uma critica sobre o que virou o cinema e a arte atualmente do que uma autocongratulação.
Sem querer dar spoiler, mas se o amor entre os dois era tão real assim, por que ele passa dois terços do filme envenenando a esposa?
Pois é. É muito louco, mas me convenceu.
Põe louco nisso.
Se é um filme do Scorsese é obra prima.Deve ser isso que passou na cabeça dos críticos que estão elogiando o longa,esse eu vou esperar sair nos streaming para assistir pois não tenho muita paciência pra ficar mais de três horas numa sala de cinema
Cara, tem que ter muito peito pra analisar um filme tão “hypado” dessa forma. Não vi NINGUÉM analisar o filme, só vi elogiarem, como se criticar fosse algo absurdo ou proibido, como se criticar/analisar fosse desrespeito.
Eu, por exemplo, achei a particiapação da Lady Gaga na música “Sweet Sounds of Heaven” dos Stones pavorosa, e só faltaram me açoitar.
Dá gosto te acompanhar há tantos anos. Grande abraço.
Valeu demais, Sandro, está realmente difícil analisar um filme tão comentado numa época em que o belicismo tomou conta da Internet. Felizmente, aqui no site tenho leitores que ainda curtem textos analíticos. Ah, e vou ouvir a Gaga com Stones, ainda não tive coragem. Abraço!