out/2023

Crítica: “O Túnel de Pombos”

Por André Barcinski

Crítica: “O Túnel de Pombos”

Por André Barcinski

A Apple TV exibe “O Túnel de Pombos”, de Errol Morris, perfil do ex-espião britânico David Cornwell (1931-2020), que, sob o pseudônimo John le Carré, lançou romances clássicos de espionagem como “O Espião Que Sabia Demais” e “O Espião Que Veio do Frio”.

Nos últimos 20 anos, desde que dirigiu “Sob a Névoa da Guerra”, documentário sobre Robert S. McNamara, Secretário de Defesa norte-americano durante a Guerra do Vietnã, Morris fez outros três filmes que consistem, basicamente, de longas entrevistas misturadas a cenas de arquivo e a imagens impactantes que complementam a narrativa: “O Conhecido Desconhecido” (2013), sobre o Secretário de Defesa dos EUA na Guerra do Iraque, Donald Rumsfeld), “American Dharma” (2018), perfil do estrategista político de extrema-direita Steve Bannon, e, agora, “O Túnel de Pombos”, sobre John le Carré.

Na teoria, não é difícil fazer uma entrevista e jogar cenas de arquivo no meio. Há inúmeros casos de documentários feitos dessa maneira. O problema é que, frequentemente, eles resultam em filmes preguiçosos e pouco inspirados, que mais se assemelham a reportagens de TV (assista a “De Palma”, doc de Noah Baumbach sobre o cineasta Brian De Palma, disponível no Youtube Filmes, e confira).

Mas Errol Morris é tão talentoso e criativo que consegue fazer uma entrevista parecer um “thriller”. Ele sabe tudo sobre os entrevistados e leva as conversas a direções surpreendentes.

No caso de “O Túnel de Pombos”, a tarefa não era fácil: John le Carré foi, durante mais de uma década, espião de serviços de Inteligência britânicos, onde conduziu interrogatórios, infiltrou-se em grupos considerados “inimigos” da Rainha e plantou aparelhos de escuta em residências e escritórios. Se existe alguém que sabe fazer uma entrevista, é ele. E foi le Carré, escritor notoriamente avesso a entrevistas, que escolheu dar seu último depoimento justamente para Morris. “Eu pesquisei o seu trabalho e achei que seria uma última oportunidade, agora no fim da minha vida, de contar toda a história”, diz o autor ao cineasta.

E que história: nascido na Inglaterra em 1931, David/John teve uma trajetória marcada pela figura do pai, Ronnie, um trambiqueiro que vivia de dar golpes e foi preso inúmeras vezes. “Na minha infância, não havia verdade, só encenações”, diz o autor, explicando o interesse que sempre teve por pessoas que vivem “nas sombras” e que, segundo ele, o levou a trabalhar em serviços de espionagem.

Quem leu um livro sequer de John le Carré sabe que o assunto que mais o fascina, e a base de todas as suas narrativas, é a traição. No filme, ele fala muito sobre o assunto, teorizando sobre as razões que levam pessoas a traírem outras e, por vezes, o país. Le Carré sentiu na pele as dores da traição em meados da década de 1960, quando servia na Alemanha e teve sua identidade de espião revelada pelo notório Kim Philby, um inglês que trabalhava para o governo britânico enquanto servia como espião russo. Foi essa revelação que acabou com a carreira de le Carré na Inteligência Britânica (a quem se interessa pelo assunto, recomendo um livro muito interessante, “Philby – O Espião que Enganou Todo Mundo”, lançado no Brasil em 1968 e com prefácio escrito por John le Carré. Está fora de catálogo, mas pode ser encontrado no site Estante Virtual).

Errol Morris costura as histórias pessoais e profissionais de John le Carré de forma primorosa, resultando num filme envolvente e emocionante, mesmo que passado inteiramente dentro de uma sala com duas pessoas. É o encontro de dois grandes artistas e contadores de histórias.

2 comentários em "Crítica: “O Túnel de Pombos”"

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    Maurilio Cesar Merli Silva

    Boa tarde
    Por coincidência acabei semana passada “Um Espião Perfeito “. O tema é exatamente a relação com o pai trambiqueiro . Não sabia que era autobiográfico

  • Bom dia André, tentei ver na Mostra SP mas infelizmente não pude ir na única sessão disponível. Já está na Apple TV (não sou assinante)?

    Aliás, da Mostra recomendo Anatomia de uma Queda e especialmente Folhas de Outono, este uma pequena joia.

    Abs. Fábio

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