out/2023

Crítica: “Elis e Tom”

Por André Barcinski

Crítica: “Elis e Tom”

Por André Barcinski

Sempre tomei cuidado aqui no blog para não escrever sobre projetos realizados por amigos, mas hoje vou abrir uma exceção, até pela importância da obra: se você ainda não viu “Elis e Tom: Só Tinha de Ser Com Você”, em cartaz nos cinemas, não perca.

Meu amigo João Marcello Bôscoli, produtor musical e filho de Elis e Ronaldo Bôscoli, está envolvido na produção e é entrevistado longamente no documentário, que conta a história da gravação do icônico álbum “Elis e Tom”, de 1974.

Mais que o simples relato de sessões de gravação, o filme é um documento fundamental sobre a história da música brasileira dos anos 1970 e de dois de seus personagens mais importantes. É, também, um trabalho quase arqueológico, centrado em imagens inéditas de bastidores das gravações, realizadas em Los Angeles. Esses negativos ficaram guardados por quase 45 anos e foram resgatados pelo produtor e diretor Roberto de Oliveira.

Quando o então diretor da gravadora Philips, André Midani (1932-2019) confirmou a gravação do álbum, Oliveira pressentiu que aquele seria um momento histórico, e convenceu um então jovem brasileiro estudante de cinema em Los Angeles, Jom Tob Azulay (depois diretor de docs fundamentais sobre os Doces Bárbaros, entre outros) a reunir uma equipe para registrar as gravações.

Juntar Elis e Tom não foi uma tarefa fácil. Eles não se davam bem e tinham visões musicais distintas, além de egos do tamanho de seus talentos. No filme, Nelson Motta diz que Elis considerava bossa nova “música para quem não sabe cantar”. Tom, por sua vez, não era exatamente um admirador do estilo de Elis, que achava exagerado e melodramático.

Quando Tom descobriu que Elis havia trazido o então marido, César Camargo Mariano, para fazer os arranjos, a coisa desandou. “Quando eu soube que viria uma guitarra, eu quis parar o avião”, disse Tom, sem rodeios, ao guitarrista Hélio Delmiro, que gravou o disco.

As trocas de farpas entre Tom e César não paravam. A situação atingiu um nível de tensão tão insuportável que Elis chegou a desistir do projeto e dizer a Oliveira que retornaria ao Brasil. Felizmente, foi convencida a ficar e completar o álbum.

As histórias dos desentendimentos desses dois gigantes são divertidas, mas o que emociona mesmo no filme é a música. Ver tantos talentos tocando – César Camargo Mariano nos teclados, Hélio Delmiro, o baterista Paulo Braga, Oscar Castro-Neves no violão – é um deleite. E testemunhar a genialidade e sensibilidade de Elis Regina e Tom Jobim, especialmente quando os dois acabavam de gravar algo que sabiam ser especial, não tem preço.

Um ótimo fim de semana a todas e todos.

4 comentários em "Crítica: “Elis e Tom”"

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    Marlons De Almeida E Silva

    Eu li certa vez (não me lembro da fonte agora) que esse álbum foi um presente da gravadora para Elis, e escolhido por ela, que tinha o desejo de realizar algo com Tom. Não sei se isso chega a ser mencionado no filme.

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    Joao Gilberto Monteiro

    André, imagino que a sensação de gravar algo que se sabia desde o começo, histórico com esses monstros sagrados da Cultura brasileira deve ter sido indescritível para quem participou e para quem ajudou a realizar essa obra de arte!!!!
    E falando em projetos de amigos: Você acha que o Benjamim Back será um bom apresentador na área do Entretenimento, saindo do futebol???

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