Do Arquivo: 20 documentários para ver antes de morrer
Publicado originalmente em 15/9/2011
O canal norte-americano Current TV exibiu o festival “50 documentários para ver antes de morrer”.
Os filmes foram selecionados por Morgan Spurlock, diretor de “A Dieta do Palhaço” (“Super Size Me”), filme em que relata sua experiência como cobaia numa dieta à base de sanduíches do McDonald’s.
A lista de Spurlock é, francamente, ridícula. Pra começar, ele inclui o próprio filme, que não passa de uma curiosidade, como o quinto melhor documentário dos últimos 25 anos.
Claro que há filmes interessantes na lista, mas boa parte são desses que mais parecem programas de TV ou “reality shows”. Como os documentários de Michael Moore, engenhosas peças de propaganda e cinema de quinta categoria.
Resolvi fazer uma lista de meus 20 documentários prediletos. Faça a sua lista e compare.
Aqui vai minha lista, em ordem cronológica:
Nanook, o Esquimó (Robert Flaherty, 1922) Várias sequências foram reencenadas para as câmeras, mas isso não tira o brilho dessa obra-prima que conta um ano na vida de um esquimó. Flahrety fez também o extraordinário “Homem de Aran” (1935), sobre a vida em uma ilha remota da Irlanda.
O Homem com a Câmera (Dziga Vertov, 1925) Até hoje é um choque ver esse mosaico da vida russa dos anos 20, em que Vertov praticamente inventa a linguagem cinematográfica moderna.
Olympia (Leni Riefensthal, 1938) A cineasta predileta de Hitler revolucionou o cinema com técnicas surpreendentes para a época – closes, câmeras que filmavam de ângulos inusitados e com movimentos fluidos, câmera lenta – e copiadas até hoje. O filme é controverso, mas, a bem da verdade, Riefensthal dedica imagens lindas a Jesse Owens, o atleta negro que irritou Hitler com suas vitórias nas pistas.
Marjoe (Howard Smith e Sarah Kernochan, 1972) Se você não viu ainda, ache esse filme de qualquer maneira. Conta a história de um evangelista, Marjoe Gortner, que depois de enganar milhares de fiéis por anos, tem uma crise de consciência e resolve mostrar para as câmeras suas técnicas de charlatanismo. O filme causou tanta revolta na época que nunca mais foi exibido, apesar de ter levado o Oscar. O negativo por pouco não foi perdido e o filme só foi lançado em DVD há pouco tempo.
Corações e Mentes (Peter Davis, 1974) Obra-prima do cinema documental ou uma eficiente peça de propaganda contra a presença americana no Vietnã? De qualquer forma, vale a pena ver esse filme, que causou muita polêmica na época e continua impressionante.
Grey Gardens (Albert e David Maysles, 1975) Filme arrasador sobre a vida de duas socialites decadentes, mãe e filha, vivendo numa mansão decrépita em Nova York e tentando manter as aparências.
Harlan County, USA (Barbara Kopple, 1976) Clássico sobre a luta de mineradores do Kentucky contra as condições desumanas de trabalho impostas por uma grande empresa de carvão.
A Batalha do Chile (Patricio Guzman, 1975-1979) Documentário em três partes que narra a ascensão e queda de Salvador Allende no Chile. O negativo foi doado pelo cineasta francês Chris Marker (“La Jetée”), e o cinegrafista sumiu, junto com milhares de outras vítimas de Pinochet. Cinema-verdade é isso aí.
Koyaaniskatsi (Godfrey Reggio, 1982) Imagens delirantes, nenhum diálogo, e a música gélida de Phillip Glass fazem desse filme sobre os perigos da modernidade uma experiência aterradora.
Cabra Marcado para Morrer (Eduardo Coutinho, 1984) Dois grandes filmes em um. Depois que os militares interrompem as filmagens de um documentário sobre lideranças camponesas, em 1964, Coutinho volta ao local, 18 anos depois, para retomar a história. Fascinante.
The Thin Blue Line (Errol Morris, 1988) Errol Morris é o cara. Qualquer filme dele poderia figurar nessa lista: “Sob a Névoa da Guerra”, “Doctor Death” e “Fast, Cheap, and Out of Control”… Escolhi “The Thin Blue Line”, história real de um homem condenado à morte por um crime que não cometeu. Não vou estragar a surpresa do fim. É ver para crer.
Francis Ford Coppola – O Apocalypse de um Cineasta (Fax Bahr, George Hickenlooper, 1991) Narrado pela mulher de Coppola, Eleanor, documenta a saga das filmagens de “Apocalypse Now”, marcada por acidentes, problemas gigantescos e egos maiores ainda.
Hoop Dreams (Steve James, 1994) O esporte como único meio de ascensão social para famílias negras norte-americanas é o tema desse filme comovente. O diretor acompanhou anos da vida de dois meninos que sonham em jogar basquete profissional.
Crumb (Terry Zwigoff, 1994) Fiquei estarrecido quando vi este filme pela primeira vez e descobri a história da vida de Crumb e seu relacionamento traumático com os irmãos. Revi o filme há pouco tempo. Continuei estarrecido.
Paradise Lost: The Child Murders at Robin Hood Hills (Joe Berlinger e Bruce Sinofsky, 1996) Berlinger e Sinosfky fizeram também os ótimos “Brother’s Keeper” e “Some Kind of Monster”, o documentário sobre o Metallica. Aqui, eles contam a história de três adolescentes acusados de matar um colega em um ritual de magia negra. Apavorante.
Meu Melhor Inimigo (Werner Herzog, 1999) Herzog tenta entender a demência do amigo/inimigo Klaus Kinski. Melhor momento: um índio se oferece a Herzog para matar Kinski, durante a filmagem de “Fitzcarraldo”.
Na Captura dos Friedmans (Andrew Jarecki, 2003) Os Friedman eram uma típica família de classe média suburbana. Até que o pai e um dos filhos são acusados de molestar sexualmente crianças. Uma história marcante sobre linchamentos coletivos e o sensacionalismo da imprensa.
Santiago (João Moreira Salles, 1997-2007) Adorei esse filme extremamente simples e pessoal sobre a vida do mordomo da família Salles, Santiago, um personagem obsessivo e fascinante.
The King of Kong (Seth Gordon, 2007) Filme divertidíssimo sobre dois nerds que disputam o título de campeão mundial do videogame “Donkey Kong”.
Dear Zachary: a Letter to a Son About His Father (Kurt Kuenne, 2008)Quando seu melhor amigo – cuja esposa está grávida – é assassinado, Kuenne resolve fazer um filme sobre ele, para mostrar ao filho que vai nascer. Já vou avisando: é uma das experiências mais arrasadoras do cinema nos últimos anos.
18 comentários em "Do Arquivo: 20 documentários para ver antes de morrer"
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“Dear Zachary” acabou comigo na época que assisti. Assisti novamente “O Pianista” esses dias e me causou uma sensação parecida.
Barça, o que acha do “The Vietnam War” do Ken Burns? Estou doido para ver o “Jazz” dele. Abração!
Sou suspeito pra falar do Burns, já vi tudo dele e tenho alguns em DVD. “Vietnã” é fora de série.
Senti falta de ‘Kollectiv’, documentário romeno indicado ao Oscar sobre um incêndio numa boate, e o trabalho da imprensa para descobrir o que aconteceu. Difícil ser brasileiro e não ver semelhanças com o incêndio da boate Kiss. Estava na HBO até um ano atrás, como eles andaram tirando muita coisa de lá não tenho certeza se ainda segue. Imagino que tu já tenha visto, mas se não viu… fica a dica.
Vi e escrevi aqui no blog:
https://webpreview.net.br/barcinski/colectiv-e-um-dos-documentarios-mais-impactantes-dos-ultimos-anos/
Vi Dear Zachary logo que tu recomendou neste texto… nunca mais consegui rever. Chorei muito vendo… foi uma das experiências mais fortes que já tive com um documentário/filme.
E “Free Solo” Barça?
Muito bom, mas será tão bom assim?
Agora você me pegou. Bem para fechar no mesmo tema e fico definitivamente com o “Valley Uprising” que foca na história dos percursores neste esporte insano. https://www.youtube.com/watch?v=o86TpaSBcWw
Barça, alguma razão especial pro “Buena Vista Social Club” não estar na tua lista?
Acho um ótimo filme e muito importante, mas não sei se merece estar numa lista de melhores de todos os tempos. Vc acha?
Eh o primeiro da minha lista. Acho que o Win Wenders e o Ry Coder deram muita sorte com esse filme.
Mas em docs a sorte muitas vezes eh fundamental.
Sorte só tem quem vai atrás!
esqueci de outro importante: “the bridge”. Esse tem no youtube
Fala Barcinski.
Um documentário que você recomendou há muito tempo e que eu gostei muito foi o indonésio “The Act of Killing”. Bem original. Tem com legendas em inglês no Youtube.
Um brasileiro que eu gostei foi “O Caso Evandro” do Globoplay. Tem um história bem bizarra.
De lá para cá, quais documentários em sua opinião estariam à altura destes?
Desidratei de chorar ano passado após assistir Dear Zachary. Neste ano me tornei pai e não tenho coragem de assistir novamente. De resto, a lista é maravilhosa, vou procurar os que faltam pra eu assistir.
Difícil ser pai e ver esse filme.