ago/2023

Do Arquivo: Adeus a Roger Ebert

Por André Barcinski

Do Arquivo: Adeus a Roger Ebert

Por André Barcinski

Publicado originalmente em abril de 2013

O norte-americano Roger Ebert, o mais famoso e influente crítico de cinema do mundo, morreu quinta-feira, aos 70 anos, de câncer. Ebert era crítico do jornal “Chicago Sun-Times” desde 1967. Foi o primeiro crítico de cinema a ganhar um prêmio Pulitzer, em 1975, e apresentou, por quase 30 anos, um programa na TV norte-americana com críticas de filmes. Foi também o primeiro crítico de cinema a ganhar uma estrela na Calçada de Fama de Hollywood.

Ebert sempre tentou levar a crítica de cinema ao maior número possível de pessoas. Seus programas de TV, especialmente os que apresentou por 23 anos em parceria com Gene Siskel, crítico do jornal rival, o “Chicago Tribune”, ajudaram a formar gerações de cinéfilos. Siskel morreu em 1999, de câncer no cérebro.

Roger Ebert escreveu 14 livros sobre cinema (o último, a autobiografia “Life Itself”, saiu em 2011), deu aulas em universidades, e em 1999 criou seu próprio festival de filmes, o “Ebertfest”, uma mostra anual em que exibia clássicos e filmes que, em sua opinião, mereciam um público maior. Entre 1967 e 2012, publicou sua esperada lista de “melhores filmes do ano”.

Roger Ebert conseguia falar de “blockbusters” hollywoodianos ou de filmes de arte iranianos com a mesma desenvoltura e clareza. Era admirado tanto por fãs de cinema de arte quanto pelo público que só queria saber de diversão e de comer pipoca. E tratava a todos com o mesmo respeito.

Uma de suas grandes qualidades foi justamente não fazer distinção entre dois “tipos” de cinema: ele conseguia enxergar beleza e talento tanto no cinema comercial quanto no independente.

No fim dos anos 60, Ebert teve um papel importante na defesa do cinema autoral que surgia nos Estados Unidos: elogiou diretores novatos como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese e Peter Bogdanovich, e sempre defendeu diretores considerados “malditos”, como Sam Peckinpah e Samuel Fuller. Por um breve período, Roger Ebert escreveu roteiros para Russ Meyer, diretor conhecido por filmes “B” eróticos.

Dono de um senso de humor fino, Ebert não fugia de brigas ou polêmicas. Quando o comediante Rob Schneider disse que o crítico do jornal “Los Angeles Times”, Patrick Goldstein, não estava qualificado para criticar seu filme “Deuce Bigalow” porque nunca havia ganhado um prêmio Pulitzer, Ebert escreveu: “Rob, eu já ganhei um Pulitzer, e garanto: seu filme é uma porcaria.”

Em 2002, Roger Ebert foi diagnosticado com câncer na tireóide e fez uma cirurgia para retirar o tumor. Quatro anos depois, outra cirurgia o deixou sem parte do queixo e com problemas na fala. Ebert passou a usar um sistema computadorizado de voz para se comunicar.

A doença não diminui seu ritmo de trabalho: continuou publicando críticas de filmes e passou a escrever regularmente no Twitter e em seu blog, onde postou um texto sobre sua morte iminente: “Eu sei que está chegando, e não tenho medo, porque acredito que não há nada do outro lado da morte para temer. (…) Sou grato pelo dom da inteligência, e pela vida, amor e riso. Não dá para dizer que não foi interessante.”

Roger Ebert deixa a esposa, Chaz, e milhões de fãs que aprenderam a gostar de cinema com ele.

Um ótimo sábado a todas e todos!

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