O Globoplay exibe o documentário “Belchior – Apenas um Coração Selvagem”, de Camilo Cavalcanti e Natália Dias.
Caso raro no cinema documental brasileiro, o filme é composto apenas de cenas de arquivo de entrevistas e shows de Belchior, abrindo mão de depoimentos de parceiros e amigos.
É extremamente difícil, num país sem memória e com dificuldade de acesso a arquivos, fazer um filme apenas com imagens antigas, mas Cavalcanti e Dias conseguem, com a ajuda da montagem do experiente Paulo Henrique Fontenelle (meu amigo e parceiro), construir uma narrativa fluida e jornalisticamente impecável.
Somos apresentados a Antonio Carlos Belchior, um dos 23 filhos de uma família de Sobral, no Ceará. Personalidade fascinante, Antonio Carlos queria ser padre, estudou filosofia e latim, era poliglota, e acabou fascinado pela música.
Nos anos 1970, fez parte de uma notável geração de cantores/compositores nordestinos que estourou em todo o país, a chamada “Turma do Ceará”, que incluía ainda nomes como Fagner, Amelinha, Fausto Nilo e Ednardo. Somados a outros grandes artistas de outros estados do Nordeste, como Zé Ramalho, Alceu Valença, Robertinho de Recife e Elba Ramalho, essa geração uniu a música nordestina ao pop e ao rock, criando uma sonoridade marcante.
Em 1976, depois de passar dificuldades financeiras terríveis no Rio e São Paulo e de ter a carreira praticamente salva por Elis Regina, que em shows cantava “Velha Roupa Colorida” e “Como Nossos Pais”, Belchior lançou o LP “Alucinação”, um dos mais marcantes daquela época de ouro da música brasileira.
É muito interessante ouvir, da boca do próprio Belchior, depoimentos sobre sua trajetória e sobre como ele e seus conterrâneos do Ceará foram recebidos pela “nata” da MPB, primeiro com certa desconfiança, mas logo depois, com o sucesso de composições dele e de Fagner, com mais simpatia. A verdade é que a Onda Nordestina foi responsável por alguns dos discos mais emblemáticos lançados no Brasil nos anos 70 e 80.
O filme tenta desvendar os últimos anos de vida de Belchior, em que ele some da vida pública e deixa um rastro de dívidas e mistérios, até morrer em 2017, aos 70 anos. Vale muito a pena assistir.
Uma ótima semana a todas e todos.
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6 comentários em "Belchior por Belchior"
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André, e o comercial da Wolks, qua achou?
Cara, sou muito amigo do João, entçao não vou escrever sobre o comercial, mas acho IA uma coisa perigosa demais.
André, muito interessante ver um doc do Belchior com as palavras do próprio Belchior, isso que ele sumiu por um bom tempo, imagina se ele estivesse sempre presente na mídia, teria ainda muito mais material!!!
E a família dele teve 23 filhos? Os pais deles respiravam e já vinha uma criança???
P.S: Dia de luto pesado na Música brasileira: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2023/07/17/morre-no-rio-o-musico-joao-donato.ghtml
Pois é, 23!
Um dos grandes artistas que eu poderia ter visto ao vivo e infelizmente não vi foi Belchior.
Mas compartilho aqui um registro raro de um show ao vivo em uma temporada que ele fez com a Marina Lima, dois meses após a morte de Elis… Simplesmente sensacional a oportunidade de ouvi-lo num palco e não em disco de estúdio.. A parte ruim é que as duas musicas de dueto com a Marina ficaram péssimas, embora eu goste dela, mas o resto do show é maravilhoso.
https://radiobatuta.ims.com.br/especiais/belchior-ao-vivo-em-1982
Viva Belchior
Tive a sorte de vê-lo ao vivo várias vezes, fazia um ótimo show sempre.