Crítica: “Still – Ainda Sou Michael J. Fox”
A Apple TV exibe “Still – Ainda Sou Michael J. Fox”, documentário sobre o famoso ator canadense de “De Volta para o Futuro” e seu cotidiano lidando com o Mal de Parkinson.
Confesso que comecei a assistir sem muita esperança. Filmes sobre pessoas que enfrentam doenças terríveis costumam vir carregados de grandes doses de sacarina, melodrama e autocomiseração, e não costumo ter muita paciência para isso.
Felizmente, não é o caso. “Still” consegue ser bonito e comovente sem apelar a fórmulas lacrimosas e sem demonstrar um pingo de piedade pelo personagem. Até porque o próprio Michael J. Fox se recusa a encarnar o papel de vítima.
Ao longo dos últimos 25 anos, desde que anunciou que sofria de Parkinson, Fox escreveu quatro livros de memórias e criou uma fundação que arrecadou mais de 2 bilhões de dólares para o estudo sobre a doença. Mas não espere que ele apareça no filme trombeteando sua bondade ou virtude. O que ele faz é falar com absoluta sinceridade sobre como lida com uma condição que lhe provoca dor 24 horas por dia, todos os dias.
Estilisticamente, o documentário é um primor. Dirigido por David Guggenheim, responsável por filmes sobre Al Gore e por “A Todo Volume”, que mostra um encontro entre Jimmy Page, Jack White e The Edge, “Still” abre mão do formato tradicional de documentários – entrevistas + cenas de arquivo + depoimentos de amigos e fãs – e usa imagens dos filmes e séries protagonizados por Fox para ilustrar passagens importantes de sua vida. Guggenheim também usa o recurso de encenar algumas passagens, em cenas muito bem feitas e que complementam brilhantemente a narrativa.
O único entrevistado do filme é o próprio Fox, que aparece aos 61 anos, muito fragilizado pela doença, mas falando abertamente sobre sua condição. Vemos o ator participando de dolorosas sessões de fisioterapia e, em algumas passagens, tomando tombos terríveis na rua, mas que ele próprio vê como acontecimentos normais e corriqueiros para ele.
Numa das sequências mais impressionantes, o documentário enfileira cenas de filmes e séries de TV em que Fox, já sofrendo com tremedeiras nas mãos, mas ainda sem ter anunciado publicamente sua doença, tenta esconder os efeitos do Parkinson, seja botando a mão no bolso ou segurando algum objeto. O ator passou oito anos trabalhando sem revelar a doença, e a descrição desse período é angustiante demais.
Enfim, “Still” é um grande documentário, um dos mais inventivos e emocionantes dos últimos anos. E Michael J. Fox se revela, sem drama ou sinalização de virtude, um personagem forte e fascinante. Recomendo demais.
P.S.: Esse texto estava programado quando veio a notícia da morte do grande escritor Cormac McCarthy. Farei uma coluna sobre meus livros prediletos de McCarthy na 2a, dia 19.
8 comentários em "Crítica: “Still – Ainda Sou Michael J. Fox”"
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André, quinta-feira chuvosa (em São Paulo) e de luto pesado: Morreram Luiz Schiavon (tecladista e cérebro do RPM) e a bi-oscarizada Glenda Jackson…
Triste dia, mesmo.
Me lembro que fiquei embasbacado quando saiu a noticia pois ele era muito novo pra ter Parkinson. Verei o doc.
Curiosidade.
O primeiro ator escalado para viver o McFly em De Volta para o Futuro foi o Eric Stoltz.
O MJFox veio depois, não sei exatamente por qual motivo.
E a foto que abre teu post tem o Michael J.Fox numa foto aos 61 anos em que está a cara do …Eric Stoltz!!!
Conta isso no filme. Zemeckis e Spielberg acharam que Stoltz não estava funcionando no papel. Já haviam rodado boa parte do filme.
O mais legal é que vc não consegue sentir pena dele… adorei também
Parece imperdível, camarada…é o ator da adolescência de muita gente. Acho que quando ele fazia um seriado nos anos 90/2000 (esqueci o nome) já parecia estar escondendo a doença. Gosto muito do “Segredo do Meu Sucesso”.
Mas lendo o texto deu vontade de rever “A Todo Volume”, que é muito bacana.
Sim, ele foi diagnosticado em 1990 e só anunciou 8 anos depois.