A farsa que originou “Os Embalos de Sábado à Noite”
A gravadora britânica Ace Records, especializada em relançamentos, acaba de lançar um disco formidável: “Tribal Rites of the New Saturday Night – Brooklyn Disco 1974-5”. A coletânea traz 22 canções que tocavam nas boates nova-iorquinas em 1974 e 1975, um pouco antes da explosão da discoteca, ocorrida em 1977 com o lançamento do filme “Os Embalos de Sábado à Noite”.
A seleção de músicas foi feita por um especialista no gênero: Bob Stanley, membro do grupo Saint Etienne e autor de um livro fundamental sobre a história da música pop (“Yeah Yeah Yeah”) e de uma recente biografia dos Bee Gees. O disco traz desde clássicos da gravadora mais influente da era pré-disco, a Philadelphia International, como “Wake Up Everybody”, de Harold Melvin, a hits do R&B de veteranos como Ben E. King (“Supernatural Thing Part 1”), passando por canções menos conhecidas como “Date With the Rain” (Eddie Kendricks) e “Got to Get You Back” (Sons of Robin Stone). É uma amostra divertidíssima dos sons que embalavam Nova York às vésperas da explosão da disco music em todo o mundo.
O disco foi inspirado pelo famoso artigo “Tribal Rites of Saturday Night” (“Ritos Tribais do Sábado à Noite”), escrito pelo jornalista e autor inglês Nik Cohn e publicado na revista “New York” em 1976. O artigo chamou a atenção do produtor Robert Stigwood, que comprou os direitos e contratou o cineasta John Badham para adaptá-lo para o cinema.

Toda a história de como Stigwood transformou o artigo num acontecimento icônico da cultura pop em “Os Embalos de Sábado à Noite” está contado num ótimo documentário sobre o produtor, “Mr. Saturday Night”, disponível na HBO Max.
Quando escreveu o artigo, Cohn já era uma celebridade do jornalismo musical. Em 1968, lançou “Awopbopaloobop Alopbamboom”, livro sobre as origens do rock e hoje considerado um clássico da literatura musical. Cohn tinha tanta moral que ouviu uma prévia do disco “Tommy”, do The Who, disse à banda que o álbum não tinha um hit, e Pete Townshend, sabendo que Cohn era um obcecado jogador de pinball, escreveu “Pinball Wizard” e incluiu a faixa no LP.
No artigo, Cohn visita algumas discotecas nova-iorquinas e faz perfis muito interessantes de alguns de seus frequentadores. O personagem principal do texto é Vincent, um filho de italianos que, aos fins de semana, veste um terno branco e arrasa nas pistas de dança de Bay Ridge, bairro italiano no Brooklyn. Vincent inspirou o personagem Tony Manero, que fez de John Travolta um astro do cinema.
Só havia um problema: Vincent não existia. Quase todos os personagens do artigo, confessaria Nik Cohn em 1994 ao jornal “The Guardian”, foram inventados. “Minha história era uma fraude”, disse Cohn. “Eu havia acabado de chegar a Nova York. Longe de ter algum conhecimento da vida de rua no Brooklyn, eu mal conhecia o lugar. Vincent, o herói de minha história, foi inspirado por um mod que conheci em Sheperd’s Bush (distrito de Londres) nos anos 60”.
Não foi a única vez que Nik Cohn foi desonesto. Em 1983, ele foi indiciado por tráfico de drogas depois de importar 4 milhões de dólares em heroína da Índia. Fez um acordo com a Justiça, testemunhou, pagou uma multa e ficou cinco anos na condicional. Hoje tem 76 ou 77 anos (ninguém sabe ao certo) e continua a publicar livros.
Um ótimo fim de semana!
10 comentários em "A farsa que originou “Os Embalos de Sábado à Noite”"
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Tony Manero inspirado num mod… sensacional!
Que história massa, vou correndo assistir esse documentário.
baita história. vou correr pra assistir
Depois diz o que achou!
André, nesse caso, a farsa acabou melhor do que a história original, pelo menos a partir dela nasceu um dos filmes mais bem-sucedidos da História e ajudou a resgatar a carreira dos Bee Gees, que na época, já eram veteranos em decadência….
O problema é que a tal matéria foi vendida como real, mas se ela fosse vendida como realmente foi, uma ficção, será que teria tanta atenção do público?
Acho que não.
Uma das cenas mais icônicas da história do cinema (um dança solo do Travolta ao som de “You should be dancing”) na verdade foi inspirada em um Mod. Que história incrível! Que picaretagem incrível, melhor dizendo!
Pois é. Tony Manero era invenção.
No doc mostra os detalhes que ele descreve cada personagem daquela cena. Que cara de pau!
Muita!