Rita Lee: adeus à nossa diva pop
Boa parte dos textos publicados hoje sobre Rita Lee a celebram, com justiça, como um dos maiores nomes do rock brasileiro. Mas a Rita “roqueira” é só parte da história.
Sempre vi Rita Lee como uma das mais ecléticas criadoras de nossa música. A rigor, ela não foi “roqueira” nem na fase dos Mutantes, porque era a mosca na sopa da ala “rocker” da banda, formada por Sergio e Arnaldo.
São famosas as brigas que culminaram com a expulsão de Rita dos Mutantes, justamente por se opor à guinada progressiva que os irmãos queriam impingir ao grupo.
O curioso é que Rita saiu dos Mutantes e viveu alguns poucos anos de ortodoxia roqueira com o Tutti Frutti. Ali, sim, ela foi a “rainha do rock”, em discos pesados e divertidos, mas que abriam mão da inventividade sonora que ela criou com os Mutantes.
Nunca vi os Mutantes como uma banda de rock. Claro, ali estava o visual cabeludo e as figuras marcantes da contracultura brasileira, mas a banda era criativa demais para se limitar a um gênero específico. Ouvir os primeiros discos dos Mutantes é um deslumbramento constante, uma sensação única de que tudo era possível.
Aquela molecada (é impressionante lembrar que Rita tinha 21 anos e Arnaldo, 20, quando saiu o LP de estreia) misturava rock, progressivo, música caipira, hard rock, modinha, experimentos eletrônicos e tudo que havia de mais moderno nas vanguardas musicais, criando um som único e em perfeita sintonia com as mentes mais abertas do pop internacional. Não è à toa que os discos não venderam nada no Brasil; eles estavam MUITO à frente do que se fazia por aqui.
Depois de sair dos Mutantes, Rita se transformou: primeiro, na já citada rainha do rock e, depois, na maior figura feminina do pop brasileiro. Os discos que ela e Roberto de Carvalho gravaram na virada dos anos 80, com megahits como “Caso Sério”, “Meu Doce Vampiro”, “Lança-Perfume” e “Banheira de Espuma”, elevaram o padrão de qualidade de nosso pop, com músicas extremamente bem feitas e bem produzidas.
Guto Graça Mello, o genial produtor que ajudou Rita e Roberto, chama aquela fase de “Os boleros da Rita”, e ele tem razão: foi quando ela abandonou o rock e vendeu milhões com baladonas de FM, verdadeiros boleros eletrificados que caíram como uma luva na programação das nascentes FMs. E Rita, com seu humor, escracho e beleza, capitaneava tudo com o carisma das grandes estrelas e a segurança de uma veterana que já havia passado por tudo. Aos trinta e poucos anos, ela tinha virado diva. Nossa diva pop.
9 comentários em "Rita Lee: adeus à nossa diva pop"
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O recorte da minha geração (1980), cresci ouvindo rádio AM na periferia de São Paulo, via a Rita Lee como a tia malucona das trilhas de novela. Mais tarde, adentrando na história, é que vi e entendi a importância dela no cenário da música nacional (ponto para gente como o Barça). Perda inevitável, mas inestimável! Faz falta figuras pop como ela no nosso contexto.
André, desde ontem, tudo o que foi dito e falado sobre a Rita, inclusive este seu texto, são muito merecidos, mas vc não acha que na autobiografia dela, a Rita Lee não diminuiu demais a importância dos irmãos Baptista na vida dela e a própria atuação deles nos Mutantes (obviamente entendendo a mágoa dela pelo pé nos fundilhos que levou deles em 1972)?
Sim, vou republicar sábado um texto que fiz sobre o livro dela.
Sempre achei os Mutantes chatérrimos, prefiro mil vezes a Rita solo. Gênia, vanguadista e rebelde. Um ícone no real sentido da palavra.
Posso dizer que as três mulheres formam a “santíssima trindade” das mulheres da música brasileira moderna já não estão entre nós: Elis, Gal e agora Rita.
Excelente texto! Long Live RITA!!!
O dia era pra ser triste ( e é… ), mas, pra mim, pesa mais a sorte ter vivido na mesma época que ela. Lendo seu texto, é infalível aquele sentimento de “e agora?”. Passa a história da música brasileira na cabeça, as músicas, as apresentações, as polêmicas, o Pavões Misteriosos… e não há uma referência de artista atual que chegue aos pés dela. Hoje vemos muita notícia, certa ousadia, zilhões de likes/views, recordes… mas pouca música, baixa produção, impacto passageiro e zero inteligência. Sempre tentei evitar chegar naquela fase do “ah, antes era bem melhor”, mas com notícias como essa e o estado atual da música, tá difícil evitar. Long live Rita fucking Lee.
Música brasileira era uma riqueza.
Bela síntese da figura singular que foi Rita.