abr/2023

Do Arquivo: tributo a um ícone do cinema que nunca fez um filme

Por André Barcinski

Do Arquivo: tributo a um ícone do cinema que nunca fez um filme

Por André Barcinski

Publicado originalmente em setembro de 2015

William Becker nunca dirigiu um filme ou escreveu um roteiro, mas é tão importante para o cinema quanto Fellini, Kurosawa ou Bergman. Porque Fellini, Kurosawa e Bergman certamente não seriam tão conhecidos se não fosse por William Becker.

Becker, que morreu essa semana nos Estados Unidos, aos 88 anos, era dono da Janus, uma distribuidora de filmes de arte, e ajudou a criar a Criterion, a mais importante coleção de DVDs e Blu-rays do mundo.

 A Janus foi fundada nos EUA nos anos 1950 e comprada por Becker em 1965.

Hoje, qualquer cinéfilo tem a história do cinema à disposição. Quer ver um Godard antigo? Um filme raro de Satyajit Ray? Basta procurar que você acha.

Quando Becker assumiu a Janus, as coisas eram muito diferentes. Filmes japoneses e russos não passavam regularmente nos Estados Unidos. Estudantes de cinema tinham enorme dificuldade para ver filmes de Bergman ou Truffaut.

Para muita gente – Scorsese, Coppola, Bogdanovich, George Lucas – a Janus foi uma verdadeira escola de cinema, dando a chance de conhecer o trabalho de grandes mestres europeus e orientais e ressuscitando a obra de diretores norte-americanos que andavam sumidos das telas, como Nicholas Ray e Samuel Fuller.

Veja aqui o trailer do relançamento, em cópias restauradas pela Janus, da inacreditável “Trilogia Apu”, do indiano Satyajit Ray:

Nos anos 80, Becker juntou-se a outra distribuidora, a Voyager, e ajudou a criar a Criterion Collection, que hoje conta com quase 800 títulos lançados.

Qualquer um que já tenha visto uma edição da Criterion sabe o esmero com que cada DVD ou Blu-ray é lançado: com a melhor qualidade de imagem possível e sempre recheada de extras, como documentários, trailers, cenas inéditas, comentários do diretor ou de algum especialista.

Aqui vai uma reportagem com alguns dos técnicos que trabalham na restauração e preparo dos títulos lançados pela Criterion:

Graças a Becker e a outros abnegados, o cinema de arte sobreviveu e está disponível a todos.

Quando comecei a frequentar cineclubes, nos anos 80, não havia a facilidade de ter os filmes à disposição. Quando um cineclube exibia um Tarkovsky ou um Pasolini, era uma chance rara – talvez única – de assisti-los.

Por isso, sou fascinado por histórias de pessoas que cometeram insanidades para exibir e preservar filmes. É comovente ler sobre Henri Langlois, presidente da Cinemateca Francesa, que escondeu centenas de cópias de filmes dos nazistas durante a ocupação de Paris.

Outra história linda é a da amizade entre o colecionador Raymond Rohauer e o cineasta Buster Keaton. Em 1954, Rohauer exibiu a comédia “A General” (1926), quando viu o próprio Keaton – então praticamente esquecido pelo público – na plateia, fez amizade com ele e acabou relançando seus filmes. Se não fosse por Rohauer, Buster Keaton poderia ser, hoje, um rodapé na história do cinema, e não o gênio que conhecemos.

Um ótimo sábado a todas e todos.

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