“Meu Ódio Será Sua Herança”: a reinvenção do faroeste
A HBO Max acaba de incluir no catálogo três grandes filmes. Dois deles são “Serpico” (1973), o drama policial dirigido por Sidney Lumet em que Al Pacino faz um policial honesto às voltas com a corrupção do departamento de polícia de Nova York, e “A Última Sessão de Cinema” (1971), o sensível filme de Peter Bogdanovich sobre jovens crescendo numa pequena cidade do interior do Texas, nos anos 1950. Mas eu gostaria de destacar o terceiro, “Meu Ódio Será Sua Herança” (1969), o clássico faroeste de Sam Peckinpah.
Sei que alguns vão me chamar de maluco, mas considero este o maior faroeste já feito. Para meu gosto – e quando chegamos a esse nível de qualidade de filmes, a escolha passa a ser puramente pessoal e por afinidade – supera até mesmo obras-primas como “Era Uma Vez no Oeste” e “Rastros de Ódio”.
“Meu Ódio Será Sua Herança” é “o” faroeste revisionista por excelência. Um filme que ignorou as fórmulas do estilo e conseguiu transformar em contracultura o gênero mais tradicionalista e careta do cinema americano. A juventude do fim dos 60 pôde ver um faroeste que não era estrelado por John Wayne e que ia contra o que o americanismo dele pregava. O título original, infinitamente melhor que a versão em português, dizia tudo: “A Gangue Selvagem”.
A história se passa em 1913, quando o “Velho Oeste” já não era mais o mesmo, e a trama do filme espelha os conflitos geracionais tão em voga em 1969: na fronteira do México com os EUA, um bando de caubóis fora-da-lei, liderados pelo velho Pike Bishop (William Holden),precisa se adaptar aos novos tempos. E são tempos sombrios: ninguém respeita ninguém, a liderança de Pike é posta à prova quando uma gangue rival a ataca e mata metade de seus homens e, para piorar, há a ameaça do sádico e corrupto General Mapache (Emilio Fernández), líder de uma fação do exército mexicano que combate o revolucionário Pancho Villa.
Não espere aquela velha história de mocinhos contra bandidos. No mundo de Sam Peckinpah, ninguém é mocinho. Não há lição de moral ou heróis em cavalos brancos salvando donzelas. Uma procissão em defesa da moral e dos bons costumes é usada como escudo por bandidos num tiroteio. William Holden, herói de Hollywood, atira numa mulher.
Esteticamente, o filme foi revolucionário pelo uso de câmera lenta e pela coreografia das cenas de tiroteio. Peckinpah inovou o gênero dos filmes de ação e criou um visual que seria copiado infinitas vezes depois. Um verdadeiro balé de sangue. É impossível dimensionar o impacto que esse filme teve no cinema asiático e em diretores como Tarantino, Refn e John Woo.
Quando lançado, “Meu Ódio Será Sua Herança” causou polêmica. A crítica mais tradicionalista viu no filme um exercício de sadismo, mas a então nova geração de críticos enxergou alusões à Guerra do Vietnã e uma tentativa de criar um faroeste que dialogasse com os novos tempos. E mesmo que Peckinpah já fosse, em 1969, um cineasta veterano, o filme foi um dos marcos da Nova Hollywood.
Uma vez, nos anos 90, participei de uma entrega de prêmios de cinema e, por muita sorte, sentei na mesma mesa do famoso crítico Roger Ebert, a quem eu admirava demais. Eu havia acabado de ler uma biografia de Peckinpah, “If They Move… Kill’em!”, de David Weddle, que mencionava a crítica entusiasmada que um então jovem Ebert escrevera sobre o filme. Perguntei a Ebert como foi assistir àquele filme em 1969, e ele desembestou a falar sobre o impacto de ver, uma tela grande, as imagens inesquecíveis criadas por Sam Peckinpah.
Um ótimo dia a todas e todos.
12 comentários em "“Meu Ódio Será Sua Herança”: a reinvenção do faroeste"
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E não esqueçamos do sketch do Monty Python “Salad Days by Sam Peckinpah”
Isso é maravilhoso demais.
O impacto desse filme é realmente brutal! Sam Peckinpah é fenomenal. Maravilhoso filme.
André, na sua opinião, qual o top 5 de filmes do Peckinpah ?
Abraço e continue o grande trabalho.
Wild Bunch
Straw Dogs
Alfredo Garcia
Pat Garrett
Ride the High Country
Bela lista…eu adoro Os implacaveis (the getaway) também….
Esse filme tem um dos melhores ‘não diálogos’ que eu já vi no cinema… quando Ernest Borgnine se dá conta que todos vão morrer, olha pra William Holden e dá uma risada nervosa, sádica, como se comunicasse o fato a ele… perfeito… isso é cinema puro… adoro, acho um dos cinco melhores westerns da história e ainda não acho o melhor filme de Peckimpack, honra essa que pertence a ‘Traga-me a Cabeça de Alfredo Garcia’…
Daqueles que a cada minuto, a cada vez que se assiste, fica melhor!
André, eu vi esse filme faz tempo, vou até revê-lo e bom que está de volta ao streaming, assim como o Serpico, outro que eu adoro!!!
E que morte besta (ou será feliz?) que teve o grande William Holden, se machucou em casa, mas estava tão bebaço que não pediu socorro e foi encontrado morto no dia seguinte…
Com certeza, um dos maiores faroestes de todos. Uma coisa que me impactou demais, foi a tonalidade do sangue, nas cenas de tiroteio… aquele vermelho berrante, destacado. Grande, vou rever com certeza.
Filmaço-aço. Eu ainda prefiro “Era Uma Vez no Oeste”, mas como você disse, a disputa é no mais alto nível. A caminhada para a cena final, o código de honra de não deixar um amigo pra trás mesmo que isso significasse a morte certa…Maravilhoso!
Adoro esse filme. Curiosamente revi “Serpico” e “Wild Bunch” há alguns meses porque estavam saindo do catálogo da HBO. Bom saber que voltaram. Os personagens de “Wild Bunch” são tão ruins que a gente pega fagulhas de bondade para poder criar empatia, sendo a amizade entre os integrantes do bando o ponto mais fácil de conexão, na minha opinião. E que crítico era o Ebert, hein? As críticas dele para “12 Angry Men” e “Tokio Story” estão entre as melhores que já li.
Essa semana estavam na lista de “Adicionados Recentemente”, acho que voltaram.