Do Arquivo: Didi, Dedé, Mussum e Christopher Nolan
Publicado originalmente em novembro de 2014
Esse Christopher Nolan é um fanfarrão. Um poseur.
Seus filmes são todos iguais: besteiróis vendidos com embalagem de profunda divagação existencial. A fórmula é eficiente: empilhe uma cena sem sentido em cima da outra e adicione diálogos supostamente complexos e eruditos. Depois de algum tempo, nada faz sentido, mas a barragem de informação é tão alta e intransponível que o público passa a achar tudo genial. Boa, Nolan.
“Interestelar” se passa num futuro próximo. Ficamos sabendo que ocorreu uma “guerra da comida” e que não existem mais exércitos no mundo. Quase todos os cidadãos viraram fazendeiros e plantam milho para abastecer a população.
Coop (Matthew McConaughey) é um ex-piloto da NASA e mora numa fazenda com a filha, Murph, o filho, Tom, e o sogro, vivido por John Lithgow. Por razões ridículas demais para descrever aqui, Coop acaba chefiando uma missão espacial a três planetas desconhecidos, em busca de um novo lugar para abrigar a humanidade.
O mentor da missão é um físico genial, Dr. Brand (Michael Caine), pai de Amelia, uma das companheiras de Coop na empreitada. Amelia (de Amelia Earhart, sacou?) é interpretada, na falta de uma palavra mais adequada, por Anne Hathaway, a nova Regina Duarte. Ela é um caso raro de cientista que acredita mais no amor – sim, no amor – do que na razão, e que deve ter passado boa parte de sua formação lendo “Sabrina” em vez de livros didáticos.
Só há um problema: os tais planetas ficam em outras galáxias. Para chegar lá, Coop, Amelia e amiguinhos precisam penetrar no “buraco de minhoca”, uma espécie de atalho no espaço, colocada lá por seres misteriosos chamados apenas de “Eles” (“Eles” quem? Alienígenas? Deuses? Os roteiristas?).
Fui ver “Interestelar” num cinema de shopping em São Paulo. Metade da fila estava dormindo ou em vias de. Lá pela primeira hora de filme, cogitei ir embora da sessão. Mas aí uma coisa fantástica aconteceu: uma cena tão marcante que mudou toda minha perspectiva sobre o filme.
Coop, Amelia e outro Zé Ruela precisam desembarcar num planeta para ver se o lugar é propício à vida humana. Mas o tal planeta fica próximo a um buraco negro chamado Gargantua, onde a gravidade faz com quem cada hora seja equivalente a sete anos de vida na Terra.
O trio deixa a nave-mãe e usa uma navezinha para chegar ao planeta, um lugar coberto de água (Guilherme Arantes já previa!) e onde acontecem mil aventuras. Amelia, em total mode Trapalhões, fica presa debaixo de destroços de uma nave e é resgatada poucos segundos antes de ser varrida por uma onda da altura de um país. O Zé Ruela morre, como acontece com todos os figurantes de filme de ficção-científica eliminados em ordem crescente de cachês.
Quando voltam à nave-mãe, Coop e Amelia são recebidos por um tripulante, já corcunda e de cabelo branco: “Eu esperei vocês por 23 anos, cinco meses e quatro dias!” Tive um acesso de riso incontrolável, que durou pelas duas horas seguintes e acordou toda a fileira.
Foi ali que percebi que “Interestelar” é melhor apreciado como filme cômico futurista-trash, na linha de “O Dorminhoco”, de Woody Allen, e “S.O.S. – Tem um Louco Solto no Espaço”, de Mel Brooks.
Dali em diante, foi só alegria. Frases como “Se o buraco negro é uma ostra, a singularidade é a pérola dentro dela”, “Vamos usar a cúspide de Gargantua como estilingue” e, a mais genial delas, “Eles criaram um mundo tridimensional dentro da pentadimensionalidade” assumiram novos significados – ou a ausência deles.
Um parêntese: uma vez, fui entrevistar James Cameron. Eu havia acabado de assistir ao péssimo “Velocidade Máxima 2” e estava comentando o filme com ele. Eu disse que o filme todo parecia uma desculpa para o diretor filmar a cena final, em que um navio gigantesco destrói um cais. Cameron disse que era comum cineastas começarem a pensar em um filme pela cena final. “Só há um problema nisso”, afirmou. “É quando você escreve o filme todo sem fazer muito sentido, só para tentar justificar a cena final”.
Vendo “Interestelar”, lembrei a frase de Cameron. Há várias sequências espetaculosas que foram claramente pensadas antes de se criar um contexto para elas.
O roteiro é tão óbvio que todas as “surpresas” são percebidas pelo menos uma hora antes. O filme começa com cenas de entrevistas com velhinhos, que falam de suas vidas no passado. Pouco depois, Coop conversa com a filha e explica como o tempo demora mais a passar nos lugares longínquos que ele vai explorar. “Isso quer dizer que, quando você voltar, você e eu podemos ter a mesma idade?” pergunta a menina.
O resto é com vocês.
Um ótimo Carnaval!
16 comentários em "Do Arquivo: Didi, Dedé, Mussum e Christopher Nolan"
Deixe seu comentário
Faça login para publicar um comentário.
Achei esse filme horroroso, e Tenet pior ainda. Mas gosto do A Origem (sei q tbm é bem presunçoso, mas funciona) e dos dois primeiros Batmans dele.
Aguardo ansiosamente sua resenha sobre Tenet. Um abraço.
O André comentou sobre cineastas executarem um filme apenas para justificar uma ideia par a cena final. No caso de Interestelar a intenção foi escrever um filme sobre teorias astrofísicas já comprovadas (buracos negros, distancia gigantesca entre galáxias, gravidade e relatividade do tempo). A sequencia que tirou gargalhadas do André descreve a relatividade geral de Ainstein, ou seja, é fisicamente possível. A gravidade absurda da região proxima ao buraco negro tem a capacidade de curvar o espaço-tempo. Não é uma “viagem absurda” dos roteiristas. Mas realmente parece absurdo se você não tiver conhecimento sobre o assunto.
Deixando claro que não estou defendendo o roteiro, apenas expondo que os argumentos científicos.
O problema nunca foi o argumento científico (não sou qualificado para discutir a veracidade ou não), mas o uso deles em diálogos absolutamente estapafúrdios.
Sim, entendo. Uma coisa é a veracidade do argumento cientifico. Outra é a qualidade do roteiro e dos diálogos. Eu gostei do filme porque já fui assistir sabendo que o objetivo era ilustrar os argumentos científicos, a história foi secundária pra mim,
O Cavaleiro da Trevas e Batman Begins são bons filmes…
Barcinski, seu talento para espinafrar realmente é algo invejável.
Eu, que nem Fluminense sou, entrava no seu blog sobre futebol só pra ler as catucadas.
Esse post matou uma saudade
Hahahahahaha, valeu!
Pô André, relendo seu texto eu perdi a vontade de assistir este filme.Fora que o último filme dele, o Tenet é chato.
Hahahahahaha! Mas por que alguém veria esse filme de novo?
“Anne Hathaway, a nova Regina Duarte”, hahahaha, eu amo esse texto.
Lembrei de outro que tu soltou mais ou menos na mesma época, sobre “Garota Exemplar”, do David Fincher, falando que a Rosamund Pike interpretava a protagonista como se tivesse ingerido dois quilos de anestésicos.
O melhor foi a entrevista de nosso herói Nolan, logo após a primeira exibição… sem ninguém perguntar nem provocar ele disse que essa abominação era o 2001 dele. É aquela coisa, se a criança diz que parou de brincar e quer ser tratada como adulta você leva o filme a sério e avalia como um filme adulto… que é exatamente o que essa tralha não é. A gente era feliz e não sabia, via filmes bobos e divertidos como ‘Outland – Comando Titânio’ (que eu revi agora no carnaval) e achava que era meia boca… comparado com essa m… é uma obra prima, em grande parte porque nunca se leva a sério, é um western espacial e quem não se conforma com isso que vá lamber sabão.
Que cara metido…
Tinha selecionado na minha lista mas acho que vou reconsiderar depois dessa crítica..
Albert Einstein cometeria Harakiri assistindo essa xaropada. E já já sai Oppenheimer, imagino que você, André, esteja na expectativa hahahahahaha. Abração e bom carnaval pra você e sua família.
Eu nunca tive vontade de assistir esse filme mas isso acabou de mudar rsrs