fev/2023

O faroeste que o Brasil aprendeu a amar

Por André Barcinski

O faroeste que o Brasil aprendeu a amar

Por André Barcinski

A Netflix exibe o clássico faroeste “Shane” (no Brasil, “Os Brutos Também Amam”), dirigido em 1953 por George Stevens. E, antes de qualquer coisa, vale ressaltar que a plataforma, que nunca se notabilizou pela qualidade de seu acervo de filmes antigos, tem adicionado títulos imperdíveis, como “O Poderoso Chefão”, “Taxi Driver”, “Os Intocáveis”, “Entre Dois Amores” e vários filmes de Pedro Almodóvar.

Vamos a “Shane”: quem cresceu vendo filmes no início dos anos 80, época em que mal havia locadoras de VHS e a única opção para conhecer filmes clássicos era frequentar cineclubes, esse filme era exibido com regularidade impressionante na TV Globo. E por uma razão simples: o programador de filmes da emissora, o jornalista e escritor Paulo Perdigão, era obcecado por ele. “Shane” passava mais na Globo do que “O Homem Cobra” e “A Gangue dos Dobermans” no SBT.

Não conheci pessoalmente Paulo Perdigão, mas o admirava pela qualidade de suas seleções cinéfilas. Foi ele que me apresentou a obras-primas de Hitchcock, John Ford, Orson Welles e outros grandes nomes do cinema. Sim, houve uma época em que a TV aberta exibia obras-primas do cinema. Além das sessões na Globo, outra fonte inesgotável de conhecimento, para a minha geração, foi a “Sessão Cineclube” da TVE do Rio, que exibia filmes domingos à noite, e onde vi todos os grandes filmes do Expressionismo alemão.

Paulo Perdigão era tão fanático por “Shane” que escreveu um livro-ensaio sobre o filme: “O Western Clássico: Gênese e Estrutura de Shane”, que li nos anos 80 e perdi em alguma mudança por aí (vou comprar de novo, está baratinho na Estante Virtual). Além do filme, Perdigão tinha outras obsessões que renderam livros, como o programa de rádio PRK-30 (“No Ar PRK-30”), a derrota do Brasil na Copa de 50 (“Anatomia de uma Derrota”) e Jean-Paul Sartre (“Existência e Liberdade – Uma Introdução à Filosofia de Sartre”).

Perdigão morreu em 31 de dezembro de 2007. Aqui vai o link de uma reportagem da “Veja” de 1995, assinada por Geraldo Mayrink, que traz uma raríssima foto dele. Achei também uma coluna muito bonita de Carlos Heitor Cony sobre Paulo Perdigão, publicada na “Folha de S. Paulo”:

Assistiu 82 vezes a Os brutos também amam (Shane), visitou quatro vezes as locações da obra de George Stevens, trouxe pedras e poeira de lá, tem uma cópia do filme em que enxertou uma cena na qual ele aparece no duelo final avisando a Alan Ladd que Jack Palance vai matá-lo.

Tinha um time de futebol de botão que em véspera de jogo importante ele colocava em cima do armário. Era a concentração “na montanha”, para que os botões tivessem oxigênio puro e renovado. Quando botava o time em campo, havia a trilha musical “Na Cadência do Samba” (“Que bonito é”), a mesma gravação de Waldir Calmon que acompanhava os flashes de futebol do Carlinhos Niemeyer que então passava nos cinemas.

Um dia, pegou a filmadora e fez dois vídeos, um com Jean-Paul Sartre, outro com Martin Heidegger, filósofo de sua predileção, dos quais deixou ensaios e uma tradução de O ser e o nada.

Foi durante anos programador dos filmes da Rede Globo e, nas horas vagas, escreveu Anatomia de uma derrota, sobre a final do Campeonato do Mundo de 1950, que se tornara uma de suas obsessões existenciais.

Crítico de cinema dos mais respeitados, escreveu em Manchete, O Globo e JB. Seus ídolos eram os já citados George Stevens, Sartre, Heidegger e Ademir da Guia, deste último tornou-se amigo pessoal.

Assim foi Paulo Perdigão, que morreu no último dia do ano passado, deixando um vazio em seus amigos e admiradores. Acompanhei sua carreira desde os tempos em que trabalhávamos no Correio da Manhã e Paulo despontava como um dos jovens mais brilhantes de sua geração. Era um personagem que o Justino Martins, diretor de Manchete, classificaria de “fascinante”.

Em tributo a Paulo Perdigão, vamos aproveitar o Carnaval para apresentar “Shane” aos filhos. É um faroeste dos mais animados.

Um ótimo Carnaval a todas e todos. O blog volta na Quarta de Cinzas.

32 comentários em "O faroeste que o Brasil aprendeu a amar"

  • salve, barcinski! sobre o filme (que ainda tenho que assistir, uma lacuna que credito ao meu baixo interesse por faroestes, ainda mais de hollywood – sempre curti mais os italianos, não sei por quê), desconheço a sua opinião, mas creio que este é um daqueles casos em que o título brasileiro consegue ser mais carismático que o original. você concorda? obrigado pela atenção dispensada!

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    Carlos Thomaz Pl Albornoz

    ‘Shane’ era um dos filmes favoritos do meu avô… vi pela primeira vez no colo dele… a gente via todo sábado a Sessão Western na Globo, que passava antes do Chacrinha (estou entregando a idade, ha ha ha)… na minha adolescência a Band passava muitos filmes clássicos, foi lá que vi muita coisa de Buñuel, Fellini, Antonioni (Blow Up!!!), Costa Gravas e tantos outros (apesar que Amarcord passava na Globo, nas madrugadas). Grandes memórias, hoje dificilmente alguém vai ver filmes clássicos na TV aberta. Fomos privilegiados. Grande abraço…

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    Fernando Almeida Queiroz

    esse filme faz parte da minha infância, Barça. pedia pro meu pai colocar “o filme do menininho”. amo faroestes por causa do mau pai, que graças a deus está vivo e posso compartilhar essas memórias com ele. te amo muito por essa lembrança, Barça. Noel e Nina vão amar.

  • Protegido pelo anonimato eu vou contar aqui uma história que eu nunca tive coragem de contar a ninguém:
    Shane era o filme favorito do meu pai. Deve ter visto dezenas de vezes. Quando ele estava morrendo, devastado por um câncer ele me pediu para ver o filme pela última vez. Eu o tirei da cama o carreguei até a sala – na época ele já devia estar pesando menos de 50 kg – e pus o filme no aparelho de DVD. Por um desses lances que o destino, em sua infinita indiferença pode aprontar, o aparelho quebrou com 15 minutos de filme.
    Eu prometi a ele que ia comprar um novo, mas não houve tempo e ele morreu seis dias depois.
    Agora, com o rosto coberto de lágrimas e lembrando do meu velho pai, a única coisa que vem à mente é gritar: “Shane, come back! Please!”

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    Joao Gilberto Monteiro

    André, além do Paulo Perdigão, que ajudou a formar muitos cinéfilos Brasil afora e era um sujeito discreto e avesso a fama, o Mariozinho Rocha tbm ajudou a formar muitos fãs de Música, com as trilhas de novela, mesmo sendo também alguém com quase fobia dos flashes!!!!
    Bons tempos em que a TV aberta, programas popularescos a parte, também davam espaço para a arte mais “sofisticada”, algo inimaginável hj em dia…

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    Joao Eduardo Sadi Buarraj

    André, parabéns pelos seus textos. Comecei a assistir filmes na Globo nos anos 80. Todo dia, depois do Jornal da Globo passava um filme naqueles programas Sessão de Gala ou Campeões de Bilheteria. Lembro de ter visto Um dia de Cão, Liberdade Condicional, Dança dos Vampiros entre outros.

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    Reinaldo Avelar Drumond

    Shane é um clássico. E também fui apresentado a vários outros clássícos na tv aberta, normalmente no Corujão da Globo. Na era pré vídeo-cassete, era difícil assistir filmes até madrugada e acordar para escola.

  • Por algum milagre a Netflix está com um acervo com muitos filmes bons esse mês.

    Desses filmes reprisados tinha também um dos anos 50 chamado “O flautista mágico” que era todo em rimas e passava todo sábado â tarde.

  • Grande texto Barça.
    Lembrei de uma época em que a Rede Globo era tão soberana em audiência (até por falta de outras opções ) que uma série de astros do cinema ficaram especialmente conhecidos no Brasil devido à freqüência de repetição dos filmes.
    Principalmente filmes com personagens mais casca grossa rolavam quase semanalmente popularizando Charlão Bronson (Desejo de Matar), Clint Eastwood (Dirty Harry, Bronco Billy, Punhos de Aço), Stallone e João Cláudio Van Damme eram mais conhecidos que galã de novela das oito.

  • “Assistiu 82 vezes a Os brutos também amam, visitou quatro vezes as locações… trouxe pedras e poeira de lá”

    Pô, acho que o homem gostava mesmo do filme hahaha.

    André, um off topic: Você assistiu o Nada de Novo no Front, da Netflix, que foi indicado ao Oscar? Se sim, o que achou?

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    Andre Luiz Antunes De Oliveira

    Filme maravilhoso. O texto de hoje aguçou a vontade de rever essa obra prima. Lembrei de outros grandes filmes que a globo passava nessa época: “os 12 condenados”, “sete homens e um destino”, “Bonnie and Clyde”, “o planeta dos macacos”, “butch cassidy”, filmes do 007 e por ai vai. Bom carnaval Xará. Abração

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