Filme revela a maestria de Hitchcock
Em preparação para o curso “Obras-Primas de Alfred Hitchcock”, que acontece segunda, dia 19, às 20h, para assinantes “All My Loving”, vi um documentário muito bem feito que gostaria de recomendar: “Eu Sou Alfred Hitchcock” (2021). O filme está na HBO Max e vale seu tempo.
Alguns dos entrevistados são cineastas conhecidos – Spielberg, Scorsese, Eli Roth – mas o filme vale também por depoimentos de arquivos de atrizes, atores e roteiristas que trabalharam com Hitch, como Janet Leigh, James Stewart e o roteirista Evan Hunter (“Os Pássaros”), além de alguns especialistas e pesquisadores que revelam características e histórias não tão conhecidas sobre o mestre do suspense.
O filme começa com o lançamento de “Psicose”, em 1960. Foi um filme radical, tanto no estilo visual – filmado rapidamente e de forma barata, com a mesma equipe que fazia o programa de TV “Alfred Hitchcock Apresenta” – quanto no conteúdo, hoje considerado um dos primeiros filmes de “slasher” do cinema.
“Psicose” representou um imenso risco para Hitchcock. No fim dos anos 50, ele era o cineasta mais famoso do mundo, mas não tinha o respeito e admiração da crítica americana. Seus filmes eram considerados apenas uma boa diversão.
Quem começou o processo de valorização da obra de Hitchcock foi a crítica francesa, especialmente os jornalistas da revista “Cahiers Du Cinéma” e os cineastas da Nouvelle Vague, como François Truffaut e Claude Chabrol. Em 1962, Truffaut iniciaria o trabalho de entrevistar Hitchcock longamente sobre cada um de seus filmes. O resultado foi o livro “Hitchcock / Truffaut”, que saiu em 1967 e ajudou a estabelecer o cineasta como um grande “autor” do cinema.
Quando anunciou que faria “Psicose”, Hitchcock recebeu muitas críticas. O livro de Robert Bloch, que inspirou o filme, era considerado literatura de baixa qualidade, e os produtores temiam que a produção fosse um fracasso de bilheteria e arruinasse a reputação comercial de Hitchcock.
Para adicionar ainda mais risco, Hitch decidiu fazer de “Psicose” seu filme mais radical e inventivo: filmou em preto e branco (em pleno apogeu do Technicolor!), usou movimentos de câmera absurdamente intrincados, e experimentou com montagem como ninguém havia feito desde Eisenstein em “O Encouraçado Potemkin”, 35 anos antes. A cereja do bolo foi matar a protagonista da história com 20 minutos de filme.
Bom, como sabemos, “Psicose” foi a maior bilheteria da carreira de Hitch e um marco do cinema. Aos 61 anos, o cineasta mostrou que ninguém sabia manipular o público tão bem. O filme representou seu apogeu criativo e de popularidade.
No filme seguinte, “Os Pássaros”, quando o produtor questionou por que Hitch não havia contratado atores famosos (a atriz Tippi Hendren foi descoberta pelo cineasta num comercial de TV), ele disse: “Os astros desse filme são eu e os pássaros!”
E quem discordaria?
Um ótimo fim de semana a todas e todos.
11 comentários em "Filme revela a maestria de Hitchcock"
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André, vi o documentário e é realmente muito legal. Gostei muita da parte em que fala da deusa Ingrid Bergman, que por causa do seu relacionamento com Rosellini sabotou os planos da produtora de Alfred!
Muito legal que gostou!
Barcinski, ontem assisti “Peeping Tom” no Mubi, e fiquei com a impressão de que o “Frenzy” tem muito da atmosfera do filme do Michael Powell. O que você acha de “Peeping Tom”? Depois que o terminei, a primeira coisa que veio na mente foi uma frase que você costuma usar: um roteiro desse jamais seria filmado na época atual. Um abraço.
Qmo demais esse filme, escrevi várias vezes sobre ele.
Grandes artistas são “egoístas”, procuram satisfazer suas vontades, e não atender às vontades do público/mercado. Hitchcock, definitivamente, era um grande artista.
Acho Psicose brilhante, com um senão apenas: acho fraca a sequência final do psiquiatra explicando a condição patológica do Norman Bates, contraria o forte de Hitch que era justamente contar uma estória através de imagens.
Sempre achei essa coda ridícula e desnecessária.
André, para ver como eram as coisas para o velho Hitch: Mesmo com o sucesso estrondoso de Psicose, ele ainda era questionado por um produtor do porquê não ter escalado atores famosos para o seu próximo filme, no caso, Os Pássaros…
Pelo menos, ele teve o devido reconhecimento ainda em vida, pior seria se ele viesse apenas após a morte dele…
Mais ou menos: só ganhou um Oscar honorário!
André, 2a feira estarei lá para ver a discussão. Vou aproveitar e rever Psicose depois de 30 anos (na época, assisti uma fita pirata de VHS).
Aproveitando, muitíssimo obrigado pela dica de Raven, de Tim Reitman. Não sei quando você indicou, mas deixei no wishing list da Amazon e acabei ontem… PQP… que história e que texto! Confesso que nos primeiros capítulos, achei a narrativa caótico e arrastada, mas depois refletindo: quer personagem mais contraditório, estranho, manipulador e tóxico?
Valeu mesmo. Um bom final de semana!
Esse livro é especial mesmo, vai envolvendo o leitor aos poucos, e no fim você está completamente vidrado na história.