Quando Omar Sharif, sem saber, trabalhou com Zé do Caixão
Há exatos 30 anos, meu amigo Ivan Finotti e eu começamos a trabalhar numa biografia de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. O livro – “Maldito” – levou cinco anos para ficar pronto e foi lançado em 1998.
Era outra época: não havia Youtube ou arquivos digitalizados. Para ver um filme que não existia em VHS, era necessário solicitar uma cópia em película e alugar uma sala de projeção. Para achar reportagens antigas, o único jeito era ir aos arquivos e passar dias folheando a coleção de jornais e revistas.
Uma das histórias mais curiosas sobre a carreira de Mojica foi descrita no livro, mas nunca conseguimos confirmar sua veracidade: trata-se do final do filme “O Estranho Mundo de Zé do Caixão”, de 1968.
É um filme de três episódios que termina com um sangrento banquete canibal, em que Oaxiac Odez (leia de trás pra frente!) e seus discípulos, literalmente, comem um casal. Essa sequência é interrompida por uma bizarra cena de explosões e um texto bem carola, que parece dizer que Oaxiac estaria arrependido de seus atos. Veja aqui, começando a 1:22:19:
Era um típico caso de manipulação da Censura. No fim dos anos 60, uma das fases mais brabas da ditadura militar, o Departamento de Censura não só cortava filmes e peças de teatro, mas exigia mudanças em cenas e textos. Isso havia acontecido várias vezes com Mojica, notadamente no fim do clássico “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver” (1967), em que o então chefe da Censura, Augusto da Costa (ex-zagueiro do Vasco e da seleção, que havia perdido a Copa de 50 para o Uruguai), escreveu, à mão, um texto religioso e arrependido, que que deveria ser falado por Zé do Caixão. Mojica não teve escolha senão redublar a cena.
Quando Mojica e um dos produtores, George Michel, mostraram “O Estranho Mundo de Zé do Caixão”, a Censura retalhou o filme todo e disse que só o liberaria se o personagem de Mojica tivesse um final trágico. Sem grana para rodar novas cenas, Mojica e George apelaram: George, que era egípcio, lembrou um filme rodado no Egito alguns anos antes – e no qual ele atuara como figurante – chamado “Um Homem em Nossa Casa”, que terminava com uma longa sequência de explosões em depósitos de munições. Numa de suas visitas ao Cairo, George, que tinha feito fortuna com academias de aulas de dança do ventre (juro!) tinha comprado uma cópia em 16 mm do filme. Ele e Mojica pegaram a cópia, duplicaram as cenas de explosões e simplesmente as colaram no fim de “O Estranho Mundo de Zé do Caixão”, acrescidas de um texto de teor religioso.
Quando entrevistamos Mojica e George, nos anos 90, eles não lembravam detalhes sobre o filme. George não conseguiu achar a tal cópia em 16 mm. E não era fácil conseguir informações sobre filmes egípcios. Achei, em Nova York, alguns livros em inglês sobre cinema africano e do Oriente Médio, e descobrimos que “Um Homem em Nossa Casa” era um drama de guerra dirigido em 1961 por Henry Antoun Barakat. Mas nunca conseguimos achar uma cópia para assistir.
Até agora.
Dia desses, fuçando a Internet, lembrei a história do misterioso filme egípcio. Trinta segundos de busca e… bingo! Uma cópia de “Um Homem em Nossa Casa” pintou no Youtube. Não tem legendas, mas isso não importa. O que importa é a cena final. Veja, a 2:31:25:
São as mesmas imagens. E, assim, Omar Sharif, sem saber, atuou em um filme de Zé do Caixão. O.T.: Hoje, às 20h, teremos o “Encontro” com Arrigo Barnabé. Não deixe de participar. Uma ótima semana a todas e todos.
8 comentários em "Quando Omar Sharif, sem saber, trabalhou com Zé do Caixão"
Deixe seu comentário
Faça login para publicar um comentário.
Que achado sensacional! Parabéns!
Valeu!
André, a Censura atrapalhou demais a carreira do Mojica não? Caso ela não existisse, daria para imaginar o rumo que a trajetória dele teria?
Foi o cineasta brasileiro com mais minutos censurados.
Omar Sharif atuando sem saber num filme do Mojica me lembrou de um filme que eu adoro chamado “Os Picaretas” com Steve Martin e Eddie Murphy…rs
Só que de verdade e 30 anos antes!
Bom retorno Xará. Vc deve ter histórias incríveis de bastidores e convivência com o Mojica. Que grande personagem ele foi e continua sendo.
Muita saudade do cara!