out/2022

Crítica: “David Bowie: Moonage Daydream”

Por André Barcinski

Crítica: “David Bowie: Moonage Daydream”

Por André Barcinski

Quem for assistir a “Moonage Daydream” esperando ver um documentário sobre David Bowie vai se decepcionar. Dirigido por Brett Morgen (“Cobain: Montage of Heck”), “Moonage Daydream” parece mais um filme-ensaio sobre as ideias de Bowie do que, propriamente, um trabalho com interesse jornalístico-documental. Quem não conhece a obra do artista vai ter dificuldade em acompanhar a narrativa intrincada e um tanto prolixa do filme.

Morgen não faz o menor esforço para ser didático. Nenhuma foto é identificada, assim como não vemos nenhuma indicação de ano ou capa de disco. Quem não sabe que Bowie explodiu na Inglaterra na virada dos 60 para os 70, depois teve um curto período norte-americano, seguido por alguns anos em Berlim, vai continuar sem saber em que anos o camaleão viveu em determinado lugar ou que discos nasceram naqueles períodos.

O filme inteiro é narrado pelo próprio Bowie, com trechos de entrevistas. Não há ninguém falando sobre ele, nenhum depoimento de amigos ou colaboradores. As poucas cenas em que outras pessoas falam sobre o artista são imagens de arquivo dos anos 70 ou 80, de fãs em portas de shows.  

Quando Bowie fala de suas influências, Morgen mostra imagens de Oscar Wilde, Burroughs, Aleister Crowley, Marcel Marceau, Nietszche, o Velvet Underground e outros, mas nenhum deles é identificado. De novo: quem não conhece o rosto de Oscar Wilde fica boiando. O filme não se dá ao trabalho de explicar por que aquelas pessoas foram importantes na vida de David Bowie.  

O curioso é que, para um filme-ensaio, “Moonage Daydream” tem uma estrutura bastante convencional: a vida de Bowie é contada em ordem cronológica, e as mudanças de personagens e direcionamento musical aparecem em ordem: primeiro, o trovador à Dylan, seguido pelo astro “glam” espacial, o xerox de cantor soul da fase “Young Americans”, o experimentador sonoro da fase Berlim e o megastar pop de “Let’s Dance”. Mas só quem conhece a cronologia da carreira de Bowie vai captar isso.

“Moonage Daydream” não se decide: é confuso demais para ser um documentário informativo e careta demais para ser um ensaio criativo e instigante. Também é bastante repetitivo: há pelo menos meia dúzia de sequências ao longo do filme em que Bowie fala sobre a maior característica de sua carreira, a de ser uma “esponja” de influências e buscar estar sempre antenado com as novidades. “Em todo trabalho que faço, tento capturar o espírito daquele ano em particular”, ele diz, para repetir o tema, com outra frase, 15 minutos depois.

Fãs de Bowie e pessoas que conhecem bem a obra do artista devem gostar mais de “Moonage Daydream” do que o espectador médio. Há lindas cenas de arquivo de Bowie na fase “glam” encarnando Ziggy Stardust, depois passeando por Berlim e gravando com Brian Eno e Robert Fripp (não identificados nas imagens) e curtindo a vida adoidado com o estouro do álbum “Let’s Dance” (mas nenhuma menção a Nile Rodgers, coprodutor do disco e que ajudou Bowie a obter a sonoridade pop do álbum).

O filme dura 2h14 e, lá pela metade, me peguei olhando no relógio, um tanto entediado. Na segunda metade do filme, há várias imagens repetidas da primeira, o que colaborou para uma desconfortável sensação de monotonia.

No fim, “Moonage Daydream” vale por algumas bonitas sequências de imagens de arquivo e de apresentações ao vivo (o que é aquela versão de “Heroes”?), mas fica a pergunta: como alguém consegue fazer um filme chato sobre uma personalidade tão rica e interessante quanto David Bowie?

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10 comentários em "Crítica: “David Bowie: Moonage Daydream”"

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    Rogersousa@gmail.com

    Também achei careta colocar as canções e a própria biografia do homem quase 100% cronológica, acabou ficando previsível justamente no principal….

    O Bowie já tem alguns bons documentários ‘sui generis’, a BBC produziu pelo menos dois excelentes nos últimos anos, por isso esperava que o diretor chutasse o balde e abraçasse o caos de verdade nesse… não chegou lá, mas por ser muito fã me diverti.

    Consegui ver no Imax e com o tal do Dolby Atmos, as sequências musicais em especial ficaram com o som mais alto e forte (e definido!!) que já escutei, algo sensacional! E junto com aquela tela enorme, fez toda a diferença.

  • Eu sou muito fã do Bowie, mas achei que podia ter reduzido algumas partes mesmo. Mas foi legal vê-lo e ouví-lo numa sala de cinema com som Dolby. Aliás, teve umas partes que eu quase fiquei surda.

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    Claudia Menusier

    eu me encaixo na fã incondicional e alucinada para quem o filme foi o melhor parque de diversões da vida e nem viu o tempo passar. simplesmente AMEI.
    e, sim: O QUE É AQUELA VERSÃO AO VIVO DE “ HEROES”?…

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    Guilherme Salgado Braga

    Eu fiquei com sono no filme também, concordo com toda a crítica. Eu também achei que as frases do Bowie descontextualizadas o transformaram em uma espécie de “coach”. Como ávido perseguidor de vídeos dele no YouTube, o material inédito deixou a desejar.

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    Renato Lima Duarte

    Eu vi o filme no sábado. Eu tive a mesma sensação que você. É um doc para quem conhece bem a carreira do Bowie. Quando olhei no relógio e vi que já tinha duas horas de exibição senti um alívio pois sabia que estava acabando. Prefiro documentários mais didáticos como o do Bee Gees. A expectativa era alta. Salem elogiou, Álvaro Pereira Júnior que é chato pra cacete, elogiou e por aí vai.

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