Filme traz o som e a fúria do Creedence
A Netflix exibe “Travelin’ Band”, um documentário muito simples, mas comovente, sobre um famoso show da banda Creedence Clearwater Revival em abril de 1970 no Royal Albet Hall, em Londres.
A estrutura do filme é minimalista: com a narração de Jeff Bridges, é contada a história da formação da banda, desde o fim dos anos 50 na Califórnia, quando os integrantes se conhecem na escola, passando pela fase em que se chamaram Golliwogs, até a mudança de nome para Creedence Clearwater Revival e o imenso sucesso comercial que finalmente acontece em 1968 e 1969.
Usando cenas de bastidores da banda viajando pela primeira vez à Europa, em abril de 1970, para shows esgotados na Holanda, Alemanha, França, Dinamarca e Inglaterra, o filme captura o Creedence em seu auge, depois de lançar três LPs em 12 meses e ameaçar a posição dos Beatles de banda mais popular do mundo (por uma incrível coincidência, o Creedence chega à Inglaterra poucos dias depois do anúncio da separação dos Beatles).
Só pelas imagens de bastidores é possível entender a dinâmica interna da banda, dominada pela presença magnética de John Fogerty. Ele é o compositor de quase todos os hits da banda e também produz os discos. É o porta-voz do grupo e fica evidente que os outros integrantes sabem disso.
O Creedence surgiu junto com a histórica geração de artistas norte-americanos da contracultura do fim dos 60 – Jefferson Airplane, Grateful Dead, Doors, Hendrix, Janis – mas era uma anomalia naquela cena: para começar, não trazia a lisergia em seu som, não tomava ácido e não conclamava o ouvinte a viagens alucinógenas. Eram quatro caretas de camisa de lenhador que faziam músicas de dois minutos e letras realistas que nada tinham de poéticas ou viajandonas.
O que não quer dizer que não era uma banda política: em letras como “Fortunate Son”, uma corrosiva condenação dos filhinhos de papai e de políticos que não eram convocados para a Guerra do Vietnã enquanto jovens proletários morriam aos montes, John Fogerty trazia a sua visão da América e suas injustiças.
A verdade é que Fogerty era um letrista dos mais inventivos, capaz de escrever canções rurais e que aludiam à vida interiorana do sul do país (“Bayou Country”, “Proud Mary”) sem nunca ter colocado os pés no interior (a banda era 100% urbana, de El Cerrito, próximo a São Francisco).
Voltando ao filme: depois de uma breve crônica sobre a origem e a explosão da banda, “Travelin’ Band” mostra a íntegra do show de 14 de abril de 1970, uma apresentação curta e explosiva, que começa com o sorumbático público inglês sentado comportadamente em suas cadeiras e termina com todos de pé, convulsionando aos acordes violentos do Creedence.
O PÓS: BRIGAS E MORTE
Se “Travelin’ Band” narra um período de glória do CCR, ainda estamos para ver um documentário que conte a história que veio depois. Há alguns anos, escrevi sobre o período pós-1970:
Na virada dos anos 60 pros 70, o Creedence não foi só uma das melhores bandas do mundo, mas uma das mais produtivas. Entre 1968 e 1970, lançou seis discos clássicos: “Creedence Clearwater Revival”, “Bayou Country”, “Green River”, “Willy and the Poor Boys”, “Cosmo’s Factory” e “Pendulum”.
Quem ouvia o som do grupo, inspirado no rockabilly da Sun Records e no rock do sul dos Estados Unidos, dificilmente imaginava que eles eram de El Cerrito, ao lado de São Francisco. Enquanto muitas bandas locais – Grateful Dead, Jefferson Airplane, Moby Grape – faziam um som psicodélico e viajandão, com longas jams e solos, o CCR optava pela simplicidade, com músicas rápidas e simples, que prenunciava o que os Ramones fariam alguns anos depois.
O lider do CCR, John Fogerty, é um dos personagens mais interessantes do rock americano. Tão talentoso quanto egocêntrico, mandava na banda como um general, o que causou muitas brigas com os outros três integrantes: o irmão, o guitarrista Tom Fogerty, o baixista Stu Cook e o baterista Doug Clifford. John era um perfeccionista. Recusou-se a permitir que o show da banda no festival de Woodstock fosse incluído no filme e na trilha sonora, por julgar a performance fraca. “Quando subimos no palco, passava das 3 da manhã e o Grateful Dead tinha posto meio milhão de pessoas pra dormir. Nosso show foi uma merda.” (lançado em 1994, a gravação do show é sensacional).
Em 1970, Tom decidiu que não agüentava mais o ego de John e saiu da banda. O CCR seguiu como um trio, até que John, cansado de compor quase todas as músicas, disse que as composições seriam divididas no próximo disco, “Mardi Gras”: “Vamos ver se conseguimos fazer um disco em que eu não faça tudo.” O resultado foi um fracasso de venda e público. John partiu para a carreira solo.
Nos anos 80, Saul Zaentz, dono da Fantasy, gravadora do CCR, processou John por lançar músicas parecidas com as do CCR, num caso único de artista processado por plagiar a si mesmo. John ganhou o processo e contra-atacou com várias letras venenosas contra Zaentz (em 1996, entrevistei Zaentz – ele produziu o filme “O Paciente Inglês” – e, no fim, perguntei sobre a briga com Fogerty. A entrevista terminou ali mesmo). A briga entre John e Tom continuou. Os irmãos não se falaram por quase 20 anos.
Tom morreu em 1990, de Aids, depois de receber uma transfusão de sangue contaminado. Dizem que John foi visitá-lo no hospital e a última frase que ouviu de Tom foi: “Saul Zaentz estava certo!”
19 comentários em "Filme traz o som e a fúria do Creedence"
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Um bom documentário e o show é simplesmente espetacular. Uma bela mostra de um concerto de rock no auge desse género musical. Creedence mostrou porque é uma das cinco maiores bandas ja que já surgiu nos EUA e John Forgety, na minha opinião, é uma das figuras mais importantes do rock americano ao lado de Elvis, Dylan, Jimi, Jim, Janis, Brian Wilson e Kurt Cobain.
Hit makers sem iguais. E o que dizer da magistral versão de I heard it Through the Grapevine? Um dos maiores covers de todos os tempos!
Hit MakeR, no singular. Era só o John, acho.
As imagens são lindas! Fico imaginando quanto material em vídeo de ensaios, gravações e bastidores esse pessoal deve ter guardado.
Também curti muito o Doc! O Show do CCR no Royal é icônico e há anos circulava de modo alternativo na rede… é demais poder assisti-lo com melhor definição e um cuidado especial com as cores. E a música segue arrebatadora, como sempre!
Lembro da minha surpresa ao descobrir, ainda moleque, que o John Fogerty era branco… na minha cabeça ele se parecia com o Chuck Berry….rsrs. Que voz, amigos!!
Desculpa esfarapada do John Fogerty sobre não permitir que eles participasse da gravação do Disco do Festival de Woodstock por causa do Grateful Dead. Barça você sabe que bandas assistem outras bandas simplesmentes depois deles teve os shows de Janis Joplin and the Kozmic Blues Band (em um dos melhores shows dela), Sly & the Family Stone, The Who tocando ao amanhecer e Jefferson Airplane tocando já de manhã. Shows Icônicos. Simples eles eram ETs em Woodstock. Em relação a banda eles nunca me cativaram.
Colocar o Jeff “The Dude” Bridges para narrar deve ter sido algum easter egg – proposital ou não. Uma das melhores cenas do The Big Lebowski.
Demais a narração dele.
Muito bom, André. Os dois textos. Assisti ao doc há alguns dias. Cru como o show que o motiva e a narração que o conduz. O Creedence era o John Fogerty, uma das vozes mais impressionantes do rock. Os outros se esforçavam o tempo todo em incensar o ego do líder da banda. Até me surpreendeu a performance do John Fogerty no show, alternando solos com notas alongadas, espirituais, e frases velozes.
O sucesso da banda foi espetacular.
Parabéns.
Inacreditável a infra minimalista de um megashow em 1970. Não há segurança, barreira na frente do palco, nada. Tudo muito cru, acho isso demais.
André, o John Fogerty era o Médico e o Monstro do Creedence: Sem ele, a banda não teria produzido os álbuns excelentes que fez entre 1968 e 1970, onde trabalharam muito e fizeram excelentes obras, mas aí mesmo tempo, se não fosse um artista-ditador, o grupo teria durado mais tempo!!!!
Assisti esse final de semana também, e me impressionou a falta de carisma dos caras no palco… em contrapartida, as canções tinham muita força e eram excelentes.
Tirando o John, achei os outros três fracos em seus respectivos instrumentos (apesar de que o baterista Doug “Cosmo” Clifford esmurrava a bateria sem dó).
Xará, assisti nesses fds também. Além de tudo que escreveu, o que chama a atenção também é a presença deles no palco. Só quatro caras, bebedores de cerveja, fazendo o melhor uso possível de seus instrumentos, sem pirotecnia ou qualquer outra muleta. Boa semana e nos vemos a noite com o Nasi kkkkkk Abração
Não tem nem luz direito no show!
Não conhecia a história deles, achava que eles eram do interior dos EUA.
Que nada, é uma ideia geral, mas errada. Era uma banda urbana que emulava sons interioranos.
Guardadas as devidas proporções, é parecido com o caso do paulistano da gema Sérgio Reis cantando música caipira…
Impressionante o show. Apenas os quatro no palco,nada de iluminação, backing, etc. Tocaram muito. Com o fim dos Beatles, era a maior banda do
momento. E eram muito bons ao vivo. Sensacional.
Fora toda a absurda genialidade como músico e compositor, que puta vocalista é John Fogerty também. Quanto ao show, quando se tem caras como esses, não há necessidade de nenhuma conversa ou pirtotecnia na apresentação.