set/2022

Sandro, o “cigano” que inspirou Sidney Magal

Por André Barcinski

Sandro, o “cigano” que inspirou Sidney Magal

Por André Barcinski

Quem assina a Amazon Prime já se acostumou com o caos que é a seleção da plataforma. A navegação não é das mais fáceis, e frequentemente nos deparamos com filmes sem legendas em português, ou classificados de forma estapafúrdia.

Esses dias, fuçando na Amazon, dei de cara com uma dúzia de filmes estrelados pelo ídolo pop argentino Sandro. Nascido Roberto Sanchez Ocampo em 1945 e morto em 2010, Sandro ficou conhecido na Argentina no início dos anos 60 tocando rock com a banda Los de Fuego, mas virou um imenso astro popular na virada dos 70, cantando baladas românticas e assumindo a alcunha de “O Cigano”.

Tentei assistir a trechos de alguns dos filmes, mas são muito ruins, pura exploração da imagem romântica e brega de Sandro, crooner de estilo melodramático que usa camisas coloridas abertas no peito e faz biquinho para parecer sensual. Mas, no meio de tanta baboseira – “Sandro salva um orfanato!”, “Sandro ajuda um acampamento de ciganos!” – há um documentário feito em 2018, chamado “Yo Sandro, La Película”. É um filme pobre e um tanto amador (e exibido sem legendas!), com encenações de passagens da vida do astro, mas vale por algumas cenas de arquivo muito interessantes que mostram o tamanho da popularidade de Sandro na Argentina e no mundo (é impressionante vê-lo cantando no Madison Square Garden, em Nova York).

Para o público brasileiro, a figura de Sandro é marcante por uma razão singular: foi calcado na imagem dele que surgiu um de nossos maiores astros pop dos anos 70: Sidney Magal.

Veja Sandro interpretando um de seus grandes hits’, “Tengo”…

E Magal cantando a versão em português, “Tenho”…

A gênese de Magal é fascinante. O personagem de Magal “Cigano” foi criado em 1977 por um espertíssimo produtor e músico argentino chamado Roberto Livi, que havia feito relativo sucesso no Brasil nos anos 60 cantando na Jovem Guarda e depois foi produtor, compositor e empresário de artistas como Peninha, Zé Rodrix e Lilian. Livi viu Magal cantando Bossa Nova (Magal era primo de segundo grau de Vinicius de Moraes) num restaurante no Rio de Janeiro e teve a ideia de transformá-lo na versão brasileira de Sandro.

Em 2012, entrevistei Livi por telefone de Miami, onde ele vivia desde meados dos anos 80, produzindo discos em espanhol de Julio Iglesias, Raphael e Roberto Carlos. Aqui vão trechos da entrevista, publicada em meu livro “Pavões Misteriosos”, em que Livi fala de como criou Magal, “O Cigano”:

Quando o senhor viu o Magal pela primeira vez?

Recebi um convite do Pedrinho da Luz, dos Fevers, que havia sido contratado como diretor artístico da Polygram, para trabalhar com ele. Então eu fui para a Polygram, e ele me mandou dar uma olhada num cantor que estava se apresentando numa pizzaria na Barra da Tijuca: “Vai lá, dá uma olhada, porque ele está na companhia, lançamos o disco e não vendeu”. Era o Sidney Magal. Assim que ele cantou “Maracangalha”, me emocionei.

Roberto Livi, “inventor” do Sidney Magal “Cigano”

Ele já tinha o visual latino?

Isso tudo foi invento meu, o cigano, todas aquelas coisas. Eu tinha um ídolo na Argentina, que chamava Sandro, e percebi que o Magal poderia ser um Sandro brasileiro. Não que ele imitasse o Sandro, mas seguimos aquela linha e foi bom. Magal explodiu no Brasil todo. Ficamos vários anos juntos. Foram anos de muito dinheiro, triunfamos muito, fizemos um filme juntos, “Amante Latino” [com roteiro de Paulo Coelho!]. Magal era um dançarino espetacular. Fizemos uma parceria tão grande que eu opinava em tudo: roupa, repertório, ele não mexia um dedo sem falar comigo. Eu fazia coisas que aqui não tinham sido feitas. Por exemplo: naquele tempo, os artistas não faziam dois shows em uma mesma noite, porque no Rio, com os túneis, com as montanhas, era difícil chegar a dois shows. Eu contratei uma ambulância e nós fazíamos até três shows por noite.

O Magal me disse que escapou de vários shows quebrando paredes.

Eu botava no contrato que clube que não tivesse porta pelos fundos tinha que fazer um buraco, e todo mundo quebrava a parede. Porque era ridículo um ídolo daquele tamanho tendo que entrar pela frente.

Os primeiros discos do Sidney Magal são muito calcados na discoteca, que estava bombando na época.

Eles foram calcados em algo que não existia no Brasil. No Brasil, existiam os cantores que eram muito românticos e parados, não havia um cara que dançasse. Antes do Magal, os cantores brasileiros chegavam ao palco, jogavam a âncora e começavam a cantar. O Magal acabou com isso. Esse é o motivo da explosão do Magal: ele sabia dançar como um Travolta. E eu era um empresário que sabia o que queria. Vai parecer um “argentinismo” o que vou dizer, mas é verdade: se o Chacrinha queria o Magal, eu falava que ele só ia ao programa se cantasse duas músicas. “Mas no Chacrinha só cantam uma música”. Então ele não vai. Havia gente que me odiava, mas eu defendia os meus artistas e as minhas ideias.

Em 1977, 78, o Magal foi o artista mais popular do Brasil, não foi?

Sem dúvida.

Magal também falou para mim sobre o encontro com Livi:

Como foi o encontro com ele?

Não foi bem o Livi que me inventou, mas quem me descobriu. Na época, algumas revistas, como a “Veja”, e outras que eram mais elitizadas, diziam que eu era um artista de laboratório, que tinha sido criado por uma gravadora pelas mãos de dois, como chamaram na época, “Doutores Frankenstein”: Roberto Livi e Paulo Coelho. Apesar de me sentir muito envaidecido por ter trabalhado muito com o Paulo e ter gravado, inclusive, músicas que ele compôs para mim, até versões que ele escreveu, o Paulo Coelho não foi o responsável pela minha carreira, não foi o cara que deu as dicas do que era bom para a minha carreira. Quem deu essas dicas foi o Roberto Livi. Roberto Livi foi um cantor da Jovem Guarda, latino, que tinha toda a latinidade que eu tenho no meu trabalho, que se identificou com isso. Ele foi o cara que começou a selecionar repertório para mim, escolheu versões de cantores da América Latina e, inclusive, foi o compositor de “Sandra Rosa Madalena”, que é o hit da minha vida. Livi era o diretor da gravadora [Polydor] e foi o cara que, realmente, deu muitas dicas importantes para que a minha carreira desse certo.

Onde o Livi te descobriu?

Ele me descobriu cantando. Quando eu cantava em churrascaria, na volta da Europa, recebi um convite para fazer um teste na Polydor. Gravei uma versão para “Oh Very Young”, do Cat Stevens, o título era “O Velho Sonho”. O meu teste foi tão bom que decidiram lançar em disco. Eu gravei de um lado “Oh Very Young” e, na época, o diretor artístico da gravadora, que ainda não era o Livi, escolheu para o outro lado “Se Te Agarro Com Outro Te Mato”, que era uma versão de uma música de um cantor argentino [Cacho Castaña] e que virou o primeiro grande sucesso da minha vida. Mas, quando lançaram, as emissoras todas disseram: “Não, Deus me livre, isso é muito popular, isso é muito brega, não tem qualidade”. Nisso, o Livi foi contratado pela Polydor como produtor e escolheu os artistas que ele queria trabalhar. Escolheu Peninha, Lilian, Alcione e Sidney Magal. Ele me disse: “Você está na linha certa, eu tenho um repertório monstruoso para você, mas não podemos construir nenhum trabalho em cima de um fracasso, então vamos ter que estourar essa música ‘Se Te Agarro Com Outro Eu Te Mato’ de qualquer maneira. E já que os comunicadores não gostaram muito da música, está na hora de mostrar você, porque de você, eu tenho certeza que eles vão gostar”. O Livi começou então a ligar para todas as TVs e rádios, me ofereceu para o Silvio Santos, que me botou no programa “Os Galãs Cantam e Dançam”. Um dia, o Walter Lacet, do “Globo de Ouro”, ligou para o Livi: “Bicho, eu quero esse Magal, esse cara é demais, ele é muito bom. A música é ruim, mas o cara é muito bom de palco, tem uma imagem do cacete”.

Roberto Livi morreu na Flórida, em janeiro de 2019, aos 76 anos.

Um ótimo fim de semana a todas e todos.

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