ago/2022

Adeus ao guardião de Stanley Kubrick

Por André Barcinski

Adeus ao guardião de Stanley Kubrick

Por André Barcinski

Um personagem tão importante quanto desconhecido da história do cinema se foi em 19 de agosto: o britânico Leon Vitali morreu, aos 74 anos, em Los Angeles, de causas não divulgadas.

Poucos cinéfilos o conheciam por nome, mas Vitali teve um papel fundamental na produção e divulgação da obra de um dos cineastas mais importantes e adorados do cinema: Stanley Kubrick.

Por mais de 40 anos, Vitali foi o guardião, divulgador, arquivista e restaurador da obra completa de Kubrick. Ninguém conhecia tão bem os filmes, roteiros, anotações, storyboards, desenhos e cartas que o cineasta reuniu ao longo da carreira.

Além de ser um grande cineasta e criador de imagens icônicas do cinema, Kubrick tinha algumas características pessoais: era extremamente antissocial, não dava entrevistas e vivia isolado numa mansão na Inglaterra. Era um tanto desorganizado com seus arquivos e tinha uma notória falta de paciência para burocracia. Leon Vitali chegou e ajudou o amigo e chefe a superar esses obstáculos.

Em 1974, Kubrick escalou Vitali, então um iniciante ator de 26 anos, para o importante papel de Lorde Bullingdon em “Barry Lyndon”. Vitali ficou fascinado pelo talento de Kubrick e, quando a filmagem acabou, pediu para assistir ao cineasta montando o filme. “Eu queria entender o processo de edição, queria saber como uma montanha de cenas e pedaços de negativo, depois de montados, se transformam num filme”. Vitali ficou tão impactado pela experiência que largou a carreira de ator e virou assistente pessoal do cineasta.

Kubrick viu algo de especial em Vitali, e a relação profissional e de amizade dos dois se intensificou no filme seguinte do diretor, “O Iluminado” (1980). Vitali teve múltiplas funções na produção: ajudou a preparar o elenco, supervisionou os testes de centenas de atores e deixava o set de filmagem exatamente como Stanley queria. Kubrick nunca foi dos seres humanos mais afetuosos e era conhecido pela aspereza com que tratava elenco e equipe técnica. Então Vitali, um sujeito de temperamento doce e gentil, muitas vezes virava o porta-voz do cineasta. Era ele que tinha a espinhosa missão de despedir profissionais que não atendiam aos elevados padrões de exigência de Kubrick e comunicar a atores e atrizes que não haviam conseguido um certo papel no filme.

O relacionamento de Kubrick e Vitali ficou ainda mais forte nos filmes seguintes, “Nascido para Matar” (1987) e “De Olhos Bem Fechados” (1999). Ao longo dos anos, Vitali começou a organizar os arquivos do cineasta, inclusive a preservação dos negativos de todos os seus filmes, produzidos desde a década de 1950. E quando Kubrick morreu inesperadamente de um enfarte, em 1999, aos 70 anos, Vitali ficou responsável pela guarda e restauração de sua obra.

Cinéfilos não sabem, mas todo filme de Kubrick a que se assiste hoje, seja em streaming, Blu-Ray ou DVD, tem a mão de Vitali, que supervisionava pessoalmente as transferências e telecinagens, garantindo que os filmes tivessem as cores, texturas e sons imaginados por Kubrick. “Stanley era muito perfeccionista e exigente com sua obra”, diz Vitali. “Eu sabia exatamente como ele tinha imaginado todas as cenas que filmou e fazia de tudo para que os lançamentos fossem exatamente como ele queria”.

Em 2017, saiu um documentário muito interessante sobre a vida de Leon Vitali e o relacionamento dele com Kubrick: “Film Worker”. Vale muito a pena ser visto. É um relato comovente sobre um homem que sacrificou a própria carreira para viver à sombra de seu ídolo e mentor. Mas a verdade é que Leon Vitali foi a pessoa certa para preservar o legado de Stanley Kubrick.

Um ótimo dia a todas e todos.

9 comentários em "Adeus ao guardião de Stanley Kubrick"

  • Já tinha visto Leon naquele documentário sobre Kubrick, pouco tempo atrás também vi aquele sobre seu motorista particular, que é muito interessante. Obrigado pela dica, vou atrás.

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    Luiz Santos Resende

    Fala Barça. Man Kubrick transitou por tantos estilos cinematográficos, mas sempre manteve sua essência easy rider. Filmes como Laranja Mecânica, Dr. Strangelove, O Iluminado, Spartacus, Lolita e Killer’s Kiss são imensamente antagônicos, mas carregam sua genialidade e visão distorcida de mundo. Um cabra dotado de um senso mordaz e angustiante. VIVA KUBRICK e RIP o anjo da guarda dele Leon Vitali, mas uma pergunta que vai herdar teste tesouro?

  • Shelley Duvall sofreu nas mãos “exigentes” do Kubrick… Mas em dúvida, um dos maiores gênios da história do cinema… Você gostou de “De Ollhos Bem Fechados”, André?

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        Vinicius Valter De Lemos

        André, sobre o Stephen King ter odiado O Iluminado, foi em razão do Kubrick ter mudado completamente a concepção de personagem Jack Torrance do livro para o filme. Enquanto no livro ele é um cara que se perde aos poucos por n razões, no filme ele já parece meio fora da casa desde o início e que só termina de pirar; afora isso, King constrói um último ato de redenção pro Jack, coisa que o Kubrick fez toda questão de descartar. Eu acho que isso teria pouca relevância se o próprio King não se enxergasse no personagem do Jack Torrance (durante um bom tempo King era viciado em alcool e pó), o que deve ter contribuído demais pra essa birra do escritor com essa obra prima que o Kubrick entregou.

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    Joao Gilberto Monteiro

    André, só por ter aturado o Stanley Kubrick por tantos anos, o Leon Vitali merece um lugar privilegiado no céu!!!
    E dos filmes do Kubrick, qual (ou quais) os teus favoritos?

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