“Uprising”: a tragédia que escancarou o racismo britânico
Excelente dica do leitor Rodrigo Ramiro: até dia 17 de agosto, o site do festival EcoFalante exibe, gratuitamente e com legendas em português, o documentário “Uprising”, produzido pela BBC e dirigido pelo talentosíssimo Steve McQueen.
“Uprising” é dividido em três episódios de 60 minutos e conta a trágica história de um incêndio em uma festa em Londres, ocorrido em 1981, que matou 13 jovens britânicos negros de famílias caribenhas.
O incêndio provocou protestos da comunidade negra britânica, que suspeitava que o fogo tivesse disso provocado por uma bomba incendiária. Naquele período, vários atentados ocorreram em bairros negros da periferia de Londres e em outras regiões do país, provocados pelo aumento da tensão racial com a então crescente popularidade do National Front (Frente Nacional), um grupo racista que defendia a expulsão de imigrantes do Reino Unido.
“Uprising” começa dando um panorama da Inglaterra no fim dos anos 70, quando a onda conservadora de Thatcher dominou o país e imigrantes passaram a ser cada vez mais perseguidos por uma polícia violenta e claramente racista.
Os depoimentos, tanto atuais quanto os de arquivo, são impressionantes: pessoas falam da perseguição que sofriam, com batidas policiais em festas e eventos da comunidade negra, e da desconfiança que negros, indianos, paquistaneses e outros imigrantes nutriam pelo governo e pela polícia.
Somos apresentados a mais de uma dúzia de grandes personagens, de um DJ que costumava tocar reggae e ska em “house parties” da comunidade caribenha a uma octogenária que perdeu o filho no incêndio, de uma ativista da comunidade negra a um poeta que escreveu sobre a tristeza de viver num país que não o acolhia como cidadão.
As entrevistas e as imagens de arquivo são tão bem amarradas e tão fortes que o espectador vai se envolvendo com os personagens. Quando o incêndio finalmente ocorre, no fim do primeiro episódio, é impossível não se comover.
Steve McQueen é o que há. O cara ganhou o Oscar de melhor filme por “12 Anos de Escravidão”, mas seu trabalho mais impressionante, para mim, é a série “Small Axe”, cinco filmes ambientados numa comunidade caribenha na periferia de Londres, na virada dos anos 60 para os 70.
Os episódios podem ser vistos separadamente, mas, na íntegra, formam um panorama rico e emocionante da vida de imigrantes. Já escrevi e repito: o segundo episódio, “Lover’s Rock”, passado quase que totalmente dentro de uma “house party” jamaicana, foi o melhor filme que vi em 2021.
“Small Axe” continua no Globoplay. E “Uprising” só pode ser visto até 17 de agosto, AQUI. Não perca.
Um ótimo dia a todas e todos.
13 comentários em "“Uprising”: a tragédia que escancarou o racismo britânico"
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Um documentário maravilhoso ´sobre um assunto que ainda ecoa no nosso presente. Obrigado pela dica.
André, relembrando um pouco o B3, uma pergunta: Se vc estivesse na beira de um precipício e pudesse salvar apenas um deles, quem salvaria?
Steve McQueen ou Jordan Peele?
McQueen.
Achei “12 Anos de Escravidão” superestimado… se não me engano, você também achou.
Achei sim, gosto muito mais do “Small Axe”.
Vale a pena ouvir New Crass Massahkah, de Linton Kwesi Johnson, sobre esta tragédia.
Boa dica, não conheço, valeu.
Valeu pelos créditos. Alguns dos personagens do Uprising são ficcionalizados no Small Axe, como o policial negro e o escritor Alex Wheatle, me parece que a pesquisa do Uprising inspirou o Snall Axe (ou o contrário).
Um dos personagens marcantes é o Linton Kwesi Johnson que eu conhecia pelas músicas, que recomendo muito tb, mas não sabia do seu ativismo.
Abs
Não sei se o McQueen já tinha a ideia do doc quando fez “Small Axe”.
Valeu Rodrigo e André pela dica, vou correndo assistir.
Depois diz o que achou!
Bem se um episodio de “Small Axe” foi o melhor de 2021, então tenho que conferir.
Desculpe o off topic. mas semana passada eu assisti o pior filme da minha vida, sem exagero. Estava pulando os canais na TV e cai em uma cena com o ator mexicano Gael Garcia Bernal, parei ali. Certo que estava em frente de uma hecatombe nuclear, decidi pagar para ver até onde a cara-de-pau do diretor ia chegar. O filme era “Tempo” de 2021 “dirigido” por M. Night Shyamalan, o mesmo de “Sexto Sentido” de 1999. “Tempo” é uma tentativa frustrada de alguma coisa pretensiosa ou pseudo-filosofica, so’ que nao passaria nem na madrugada do SBT nos anos 80, parece um sketch rejeitado do programa Hermes e Renato. Pior, o filme fez 90 milhoes USD em bilheteria, contra um orçamento de 18 milhoes. E se isso nao bastasse, ainda escreveram sobre o filme na “The New Yorker” e NYT, escrever sobre o filme ja’ é leva-lo a sério. Conclusão:, algo esta’ correndo muito errado por ai’.
Cara, só vejo filme do Shyamalan por obrigação profissional.