“Alô, André? Aqui é o Jô!”
Todo mundo tem uma história com Jô Soares.
O cara esteve presente em nossas vidas por 60 anos, primeiro como humorista e depois como entrevistador e apresentador de TV. Segundo cálculos, fez 15 mil entrevistas.
Some a isso o fato de ser uma pessoa extremamente acessível – não morava em condomínio fechado, saía para jantar e ver shows, e gostava de falar com todo mundo na rua – e o resultado é que incontáveis pessoas, em algum momento de suas vidas, o encontraram em alguma situação.
Tive a sorte de ser entrevistado três vezes no “talk show” dele. A primeira foi em 1992. Eu era um jornalista iniciante, tinha 24 anos e estava lançando meu primeiro livro, “Barulho”. Naquela época pré-TV a cabo, a repercussão de uma entrevista na TV aberta era muito maior do que é hoje. Lembro ir a um restaurante no dia seguinte e o garçom me perguntar se eu não aparecera na TV.
As outras duas entrevistas aconteceram em 1998, quando lancei a biografia de Zé do Caixão (fui com o coautor, meu colega Ivan Finotti), e em 2012, quando publiquei o “Guia da Culinária Ogra”. Em todas, Jô foi muito simpático e carinhoso.
Nunca fui amigo de Jô, não tinha relação pessoal com ele, mas de vez em quando ele me ligava do nada para comentar algum texto que eu havia publicado. Lendo os comentários sobre a morte dele, percebi que isso era uma constante com muitas pessoas.
Lembro, em especial, uma conversa ocorrida em 2010: eu tinha acabado de publicar um texto sobre Mario Monicelli, que morrera naquele dia, quando o telefone tocou. “Alô, André? É o Jô!”. Jô era um grande fã e conhecedor do cinema cômico italiano e estava muito triste com a notícia (Monicelli, 95, se jogara da janela de um hospital de Roma, onde estava se tratando de um câncer terminal).
Conversamos bastante sobre Monicelli, falamos dos grandes filmes dele (“Os Eternos Desconhecidos”, “O Incrível Exército de Brancaleone”, “Meus Caros Amigos”). A conversa se estendeu por outros nomes importantes da comédia italiana, como o cineasta Steno e os atores Totò e Alberto Sordi. Descobri que Jô, assim como eu, achava Alberto Sordi o máximo.
Jô se disse interessado em rever alguns filmes antigos de Sordi. Eu mandei para ele links de alguns filmes no Youtube (lembro que ele ficou contente com a notícia de que poderia rever “Guglielmo Il Dentone”, um engraçadíssimo episódio do filme “I Complessi” em que Sordi fazum candidato a emprego de apresentador de TV na RAI que é um gênio, muito superior a todos os outros concorrentes, mas é feio de doer, com uns dentes de coelho).
Jô conhecia profundamente a obra de Sordi, mas queria lembrar o nome de um filme em especial, em que Sordi fazia um assassino da Máfia. Por coincidência, eu tinha visto o filme em Nova York, anos antes: era “Il Mafioso” (1962), dirigido por Alberto Lattuada (parceiro de Fellini no primeiro filme creditado a Fellini, “Mulheres e Luzes). No filme, Sordi faz um siciliano que mora no norte do país e volta à Sicília para visitar a família, só para ser obrigado a cometer um assassinato para a Máfia. E detalhe: a linda esposa dele é interpretada pela brasileira Norma Bengell.
A notícia sobre a morte de Jô Soares me fez lembrar “Il Mafioso”. Vou tentar achar o filme para ver em homenagem ao grande comediante que se foi.
Uma ótima semana a todas e todos.
13 comentários em "“Alô, André? Aqui é o Jô!”"
Deixe seu comentário
Faça login para publicar um comentário.
André, que coincidência a questão do cinema italiano na vida do Jô, Um colega comentou acima, e este ano eu assisti o Il Magnifico Cornuto, com a exuberante Claúdia Cardinale ,ótima pedida.
Fui um grande fã.
Jô era demais… tenho o box em dvd do Viva O Gordo, e dou muitas risadas toda vez que vejo. Fará uma falta imensa.
Cara, eu também tenho essa caixa, tava vendo ontem mesmo.
Lembro bem de ter assistido sua entrevista para o Jô em 2012. Ele até brincou que a barriga da capa era de algum dos músicos da banda dele hahahahahahaha. Que descanse em paz.
Estava conversando com amigos: o Jô comediante foi incrível, mas o entrevistador foi um ponto acima no Brasil. E comparando com os talk shows dos EUA e RU – algo que só consegui fazer tempos depois – era notória a quantidade de improvisos e de espaço de criação que o Jô tinha, diferente dos roteiros mais fechadas dos similares estrangeiros. Quando o Jô virou entrevistador ele conseguiu apresentar todo o seu repertório cultural. Fazia (e fará) falta na TV brasileira.
Concordo.
André, ótimos tempos em que a Globo tinha o Jô Soares, Chico Anysio, Renato Aragão e seus colegas, Agildo Ribeiro, Costinha, etc tudo no mesmo canal e ao mesmo tempo!!!
Hj em dia, pelos mais variados motivos, o humor morreu na TV aberta, com exceção da eterna Praça é Nossa, mas sobrevive nos grupos de WhatsApp, Tik Tok e Redes Sociais em geral…
Os coadjuvantes eram muito talentosos: Eliezer Motta, Paulo Silvino, Brandão Filho, Milan, Berta Loran…
Maravilha essas dicas e os papos com o grande Jô. O YouTube está cheio de tesouros como esse do Sordi (episódio Il Dentone). Achei outro dia um deles, Il Magnifico Cornuto 🙂
Já viu o canal Film&Clips? Tem centenas de filmes italianos, muito legendados. Abraço!
Legal o texto.
Essa inquietude intelectual que vc descreve, acho era o diferencial dele para com os seus “pares” americanos. Nao creio que o Letterman, Jay Leno e mesmo o Larry King da CNN tinham o mesmo nivel cultural do Jo, um cara que conhecia cinema, teatro, musica, literatura, falava varios idiomas…
Concordo. Larry King era outro nível também, muito experiente. Acho que os talk shows americanos são muito ligados à indústria do entretenimento, enquanto o Jô tinha uma gama mais ampla de entrevistados.