jul/2022

Como a cena de baile dominou a música brasileira

Por André Barcinski

Como a cena de baile dominou a música brasileira

Por André Barcinski

Meu saudoso tio Paulinho Albuquerque era um produtor musical muito conhecido que trabalhou com Djavan, Ivan Lins, Leila Pinheiro, Leny Andrade, Guinga, Tom Jobim e muitos outros artistas importantes. Amava música e tinha um gosto sofisticado e eclético (foi ele que inventou o Casseta e Planeta como grupo musical, por exemplo). Paulinho foi curador de jazz do Free Jazz Festival, era amigo de Zuza Homem de Mello e Quincy Jones e vivia nos festivais de jazz e world music pelo mundo (quem quiser saber mais sobre ele pode acessar esse blog, que o “Casseta” Reinaldo Figueiredo mantém há mais de uma década em homenagem ao amigo).

No início dos anos 80, eu era adolescente e adorava conversar com Paulinho sobre música. Ele contava altas histórias sobre os festivais e as experiências de trabalhar com artistas diversos. Um dia, ele disse uma frase que nunca me saiu da cabeça: “Essa turma dos bailes fodeu a música brasileira”.

Na época, eu não entendi a frase, mas hoje entendo. Não concordo, mas entendo. Paulinho vinha de uma tradição purista da música brasileira, tinha uma visão romântica e idealizada da música e, nos anos 80, via a nossa indústria do disco ser dominada por uma filosofia mais comercial e pragmática, que buscava o lucro a qualquer preço. Naquela época, nossa música era quase que totalmente dominada por profissionais que tinham tocado em bandas de baile. Essa dominação é um tema que merecia um estudo mais profundo, porque realmente mudou a concepção da indústria do disco no Brasil.

Até o meio dos anos 70, nossa indústria ainda era meio que amadora (e digo isso como elogio). O Milagre Econômico aumentou muito a base de compradores de discos no Brasil, mas as gravadoras ainda eram controladas por pessoas que acreditavam em apoiar artistas de carreiras longevas. Mais importante que vender 300 mil discos, era ter no cast artistas que poderiam vender 50 mil discos durante muitos anos.

Na virada dos 70 para os 80, ocorreu um fenômeno mundial de mudanças na indústria do disco, em que gravadoras clássicas foram compradas ou incorporadas a grupos industriais que, muitas vezes, nem tinham ligação com a música. Selos diminuíram seus elencos, ficando apenas com os artistas que vendiam mais. Também passaram a investir fortunas em divulgação no rádio e TV, aproveitando a popularidade da então novata MTV. Não é à toa que foi o período dos chamados “superastros”, em que surgiram nomes como Madonna e Prince, e veteranos como Bowie, Springsteen, Elton John, Michael Jackson e Tina Turner viraram artistas “de estádio”.

No Brasil, essa mudança foi visível. Gravadoras mandaram para cá executivos holandeses, espanhóis e mexicanos que transformaram nossa indústria. Elencos foram enxugados (só a Phillips mandou embora quase 80% do elenco), artistas talentosos, mas de vendagens medianas, foram sumariamente despedidos. E as gravadoras passaram a contratar, a rodo, músicos e produtores veteranos que tinham em comum o fato de terem iniciado suas carreiras artísticas tocando em bailes.

A cena de bailes em todas as regiões do Brasil foi gigantesca. Em São Paulo, as festas mais conhecidas eram as chamadas “Domingueiras” em clubes como Círculo Militar, Harmonia e Paulistano, que revelaram conjuntos como Lee Jackson, Pholhas, Memphis, Watt 69 e Sunday. No Rio, a cena era concentrada nos subúrbios e Baixada Fluminense, em clubes como Nilopolitano, Ideal de Olinda, Cassino Bangu, Pavunense, Leopoldinense e muitos outros. Grupos como Os Famks (que depois viraria Roupa Nova), Renato e Seus Blue Caps, The Fevers, Canibais, Devaneios, Lafayette e muitos outros animavam a moçada com sets que duravam até quatro horas e incluíam de tudo: rock, pop, discoteca, soul, funk, samba, até rock progressivo (o grande Lincoln Olivetti impressionava a todos tocando Emerson, Lake & Palmer e Jethro Tull).

Os músicos que cresceram nos bailes tinham uma vantagem “comercial” em relação à geração que havia despontado nos festivais universitários: por terem tocado todo tipo de música para um público amplo, pareciam compreender melhor o gosto popular. Dá para entender por que, a partir de fim dos anos 1970, quando a cena de bailes deu uma murchada com a explosão da discoteca e a ascensão do DJ e da música mecânica, boa parte dessa mão de obra foi absorvida pelas gravadoras, que lotaram seus departamentos artístico, de produção, vendas e divulgação com músicos que vieram dos bailes.

É impossível pegar a lista de diretores de quaisquer gravadoras brasileiras dos anos 80 e não encontrar muitos ex-músicos de baile. O grupo paulistano Lee Jackson, por exemplo, era formado por cinco integrantes – Claudio Condé, Luiz Carlos Maluly, Marco Bissi, Sérgio Lopes e Marcos Maynard. Todos se tornaram importantes executivos. Já Hélio Costa Manso, do Sunday (e que também havia gravado em inglês com o nome de Steve Maclean) foi diretor da RGE e Som Livre.

No Rio, todas as grandes bandas de baile ofereceram produtores, arranjadores e executivos para as gravadoras, de Max Pierre (Canibais) e os irmãos Barros (Renato e Seus Blue Caps), a Miguel Plopschi (saxofonista dos Fevers e depois chefão da EMI e RCA). Músicos como Lincoln Olivetti, Ronaldo Barcellos, Robson Jorge, Michael Sullivan, Paulo Massadas, Rosana e todos os membros do Roupa Nova também vieram dos bailes.

Na visão de Paulinho, isso “fodeu” com a música brasileira. Eu vejo o fenômeno como uma coisa inevitável e totalmente em sintonia com o que estava acontecendo lá fora. De qualquer forma, é indiscutível que a turma dos bailes tornou a música brasileira mais comercial. É um período fascinante de nossa indústria.

Um ótimo fim de semana a todas e todos.

18 comentários em "Como a cena de baile dominou a música brasileira"

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