Adeus a Bob Rafelson, pilar da “Nova Hollywood”
Morreu dia 23 de julho, aos 89 anos, o produtor, roteirista e cineasta Bob Rafelson. Quando se fala na “Nova Hollywood” e na explosão do cinema autoral norte-americano da virada dos anos 60 para os 70, o nome dele raramente é colocado no mesmo nível de gente como Coppola, Scorsese, Bogdanovich, De Palma, Cimino e outros, mas a verdade é que Rafelson foi um personagem fundamental não só do cinema, mas de toda a cultura pop do período. Ele foi simplesmente o responsável por dois fenômenos de massa da era hippie: a banda pop The Monkees e o filme “Easy Rider” (“Sem Destino”).
Rafelson foi um típico produto da guerra geracional do período: um novato esperto que ignorou todos os conselhos da “Velha Guarda”, chegou à TV e em Hollywood com os dois pés na porta, ficou bilionário e passou a ditar estilos e comportamentos.
Sua vida daria um filme: foi peão de rodeio, tocou jazz em hotéis de Acapulco, estudou filosofia e acabou no Japão trabalhando como radialista para o Exército americano. Lá, foi consultor de distribuidoras de filmes japoneses e ficou obcecado com o cinema local, especialmente pelos filmes minimalistas e elegantes de Yasujiro Ozu. De volta aos EUA, trabalhou com roteiros para programas de TV e teve uma passagem rápida – e infeliz – por departamentos de produção de estúdios como Universal e Screen Gems.
Em 1965, Rafelson conheceu o produtor Bert Schneider, e juntos criaram a produtora Raybert (que depois, com a chegada de outro sócio, Stephen Blauner, mudou de nome para BBS Productions). O primeiro projeto da Raybert foi uma série cômica de TV sobre quatro amigos numa banda de rock: “The Monkees”. Sob a fachada de diversão juvenil inofensiva, o programa misturava pop, psicodelia, ácido e maquinações da indústria fonográfica.
Do programa nasceu a banda The Monkees, que logo virou um sucesso mundial, com cinco LPs lançados em 18 meses e que passaram um total de 37 semanas no topo da parada dos EUA. Não importava que os atores não soubessem tocar nem cantar. Os dois primeiros LPs deles foram inteiramente compostos e gravados por músicos de estúdio.
Rafelson estreou como diretor de cinema com “Head” (1968), um bizarro filme estrelado pelos Monkees. É uma espécie de versão psicodélica para os filmes dos Beatles e foi coescrito com um amigo que se tornaria parceiro de Rafelson: Jack Nicholson.
Mas foi “Easy Rider” que realmente tornou Bob Rafelson um astro da contracultura. O filme não foi o primeiro da chamada “Nova Hollywood” – essa briga deve ficar entre “A Primeira Noite de Um Homem” e “Bonnie e Clyde”, ambos lançados em 1967 – mas foi o primeiro inteiramente feito por uma equipe de porra-loucas e cuja produção não teve o dedo de nenhum velho da indústria (vale lembrar que Mike Nichols já era um veterano do teatro e da comédia quando dirigiu “A Primeira Noite de um Homem”, e Arthur Penn dirigia filmes desde o fim dos anos 50 quando fez “Bonnie e Clyde”).
“Easy Rider” foi o primeiro filme feito pela e para a contracultura. Rafelson e Schneider botaram uma grana nas mãos de um psicopata cocainônamo como Dennis Hopper e nas de seu parceiro, o não menos alucinado Peter Fonda, e o resultado foi um filme imperfeito e até amadorístico, mas que captou o espírito da época como nenhum outro. E quando Hopper diz: “Eu fui o responsável pelo problema da cocaína nos Estados Unidos”, está exagerando para efeito cômico, mas não tanto.
Se Bob Rafelson tivesse se limitado a criar os Monkees e produzir “Easy Rider”, já teria uma cadeira cativa no clube dos malucos-beleza do cinema. Mas fez bem mais: dirigiu alguns filmes marcantes do período, como “Five Easy Pieces” (1970) e “The King of Marvin Gardens” (1972), ambos estrelados pelo chapa Jack Nicholson, e produziu maravilhas como “A Última Sessão de Cinema” (Peter Bogdanovich, 1971) e “Corações e Mentes” (grande e violento documentário sobre a Guerra do Vietnã, dirigido por Peter Davis em 1974 e vencedor do Oscar).
Revi “Five Easy Pieces” (no Brasil, “Cada Um Vive Como Quer”) esses dias, e o filme não envelheceu um minuto. Jack Nicholson faz um pianista, rico herdeiro de uma família abastada, que larga o conforto – e a paranoia – familiar e arruma um subemprego cavando poços de petróleo na Califórnia, onde começa um romance como uma garçonete (Karen Black).
O filme é Ozu até a medula: a câmera quase não mexe, os enquadramentos são milimetricamente pensados e toda a ação ocorre dentro da moldura, sem “pans” ou quaisquer efeitos visuais que distraiam o espectador dos diálogos secos e ásperos dos personagens. É um filme duro sobre a incompatibilidade geracional e o abismo entre pais e filhos nos Estados Unidos dos anos 60. Certamente um dos grandes papéis de Jack Nicholson. Há uma entrevista dele no Youtube em que diz: “Não há uma semana em que alguém não me pega pela lapela e grita no meu ouvido: ‘Five Easy Pieces’ mudou minha vida!”
O filme pode ser alugado no Youtube Filmes, Apple TV, Amazon e Claro Video e foi lançado em DVD pela Versátil Filmes na caixa “Nova Hollywood”. Não deixe de assistir.
Um ótimo dia a todas e todos.
14 comentários em "Adeus a Bob Rafelson, pilar da “Nova Hollywood”"
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Frank Zappa fez uma ponta no filme Head, aparece puxando uma vaca.
Estou lendo o livro do Peter Biskind sobre a Nova Hollywood, e nele são contadas várias histórias incríveis (e bem doidas) sobre o Bob Rafelson. Que descanse em paz.
Sim, era da pá virada.
Valeu André, estava esperando por esse texto.
Espero que goste, Renata!
falando em produtores da época, você viu “the offer”, sobre a produção do poderoso chefão? divertido, ainda que longo demais e certamente enviesado pela visão do produtor do filme, o al ruddy (a série é baseada em sua “memória” dos eventos).
Vi os dois primeiros episódios, mas achei bem caricato. O Mario Puzo tava bem ridículo, não? Era um personagem trágico, ficou parecendo figura do “Sai de Baixo”. Não me pegou. Vale?
vale pra conhecer algumas histórias muito boas, mas realmente muitos personagens ficaram bem caricatos. Mas eu conhecia mto pouco de como filmaram o filme, então tem muita novidade. Se você conhece, já leu etc, talvez não valha mesmo.
ah, e claro que podia ser de 4 a 6 episódios apenas, 10 é um exagero, essa moda dos streamings de alongar história pra preencher a cota de conteúdo.
Vou ver se assisto mais alguns então.
desculpe, retiro o comentário. Terminei de assistir esse fim de semana e degringola sem dó, chapa branquice pura e cenas constrangedoras de rasgação de seda pro produtor. Não perca seu tempo.
Fala Barça, tudo certo?
Fui procurar sobre as produções que o Rafelson esteve envolvido e encontrei o doc Corações e Mentes legendado no Youtube.
https://www.youtube.com/watch?v=wRbEBqAV4XQ
Muito bom, mas pesado..
Impressionante como tu escreve com paixão e nos faz querer imediatamente ver os filmes que indica e ouvir os álbuns que também indica.
Grande abraço.
Muito obrigado!