jul/2022

Crítica: “As Últimas Estrelas do Cinema”

Por André Barcinski

Crítica: “As Últimas Estrelas do Cinema”

Por André Barcinski

Nas últimas semanas, recomendei alguns documentários da HBO Max, como os filmes sobre o comediante George Carlin e o saxofonista Kenny G. Não tenho nenhuma ligação com a HBO e nunca trabalhei para eles, mas a verdade é que a safra recente está muito boa e merece ser elogiada.

Nos últimos dias, começamos a ver “As Últimas Estrelas do Cinema”, uma série documental em seis episódios sobre o casal Paul Newman e Joanne Woodward, dirigida pelo ator Ethan Hawke. Já vimos dois episódios e estamos adorando.

A série tem uma estrutura narrativa muito particular: as entrevistas com Newman, Woodward e dezenas de artistas, escritores e cineastas que trabalharam com eles – gente como Gore Vidal, Martin Ritt, Sidney Lumet, George Roy Hill, John Huston, além de parentes do casal – são interpretadas por atores como George Clooney, Laura Linney, Zoe Kazan, Sam Rockwell, Vincent D’Onofrio, Mark Ruffalo e outros. E a o motivo é prosaico: todas as mais de 100 horas de entrevistas gravadas que deveriam servir de base para uma autobiografia de Newman foram destruídas pelo próprio ator.

Ninguém sabe por que Newman botou fogo nas fitas, mas a sorte é que elas haviam sido transcritas. Hawke pegou esse material, convocou um grupo de atrizes e atores talentosos e dirigiu a recriação sonora das entrevistas. Depois juntou esse material com uma montanha de cenas de arquivos – filmes, cinejornais, entrevistas de TV, material fotográfico – e fez um perfil detalhado do casal.

É fascinante perceber como, no início das carreiras deles, era Joanne Woodward que brilhava mais intensamente. Ela era considerada uma grande atriz, muito talentosa e versátil, enquanto Newman sofria com as comparações com Marlon Brando e James Dean, seus “rivais” nos anos 1950.  

Foi só depois que Newman fez “The Hustler” e “Hud” que seu nome explodiu em Hollywood. Joanne, por outro lado, teve a carreira prejudicada ao se dedicar à criação dos filhos (teve três com Newman que, por sua vez teve outros três com a primeira esposa).

A série foi produzida durante a pandemia e as cenas documentais são intercaladas por entrevistas, feitas por Zoom, em que Hawke fala com as filhas do casal e com pessoas que os conheciam, como Martin Scorsese e Paul Schrader. O ator também discute as carreiras de Paul e Joanne com outros atores, e é muito interessante ver colegas falando das técnicas de interpretação dos dois.

As entrevistas são intimistas e reveladoras. Newman fala de suas inseguranças profissionais, demonstra raiva com as comparações com Brando e se coloca num patamar inferior de talento em comparação com seus contemporâneos como Eli Wallach, Sidney Poitier e James Dean.

Já Woodward não esconde o fato de que o tempo que passou criando os filhos pequenos atrasou sua carreira. Ela diz – por intermédio da interpretação de Laura Linney: “Amo meus filhos, mas a verdade é que o tempo que passei com eles me prejudicou profissionalmente. Quando eu estava no set de filmagem, ficava com vontade de estar com eles, e quando estava em casa, ficava me perguntando por que não estava no set”.

Uma ótima semana a todas e todos.

7 comentários em "Crítica: “As Últimas Estrelas do Cinema”"

  • Imagem de perfil do usuárioImagem de perfil do usuário
    Joao Gilberto Monteiro

    André, falando na HBO Max, vc chegou a ver o doc sobre o assassinato da Daniella Perez?
    O que vc achou da opção feita pelos diretores de não entrevistarem os assassinos, mesmo eles já soltos?

    • Imagem de perfil do usuário
      Andre Barcinski

      Cara, não vi. Não posso falar por quem dirigiu, mas se eu fosse o diretor, tentaria entrevistar os assassinos. Isso não “dar palco” pra ninguém, é jornalismo.

        • Imagem de perfil do usuário
          Andre Barcinski

          Entrevistar criminosos não significa beneficiar a imagem deles. Entendo que os parentes possam não gostar, mas, jornalisticamente, não falar com o criminoso é perder parte importante da história. Abraço!

        • Tivemos um discordância parecida com essa, quando certa vez, tu citou que nos EUA, as passeatas de nazistas são cobertas pela mídia, e isto, na tua opinião, é liberdade de expressão exercida (pra mim, é liberdade de opressão, mas, enfim)… a parte importante da história nesse caso, seriam apenas mentiras, caso os dois assassinos resolvessem falar, André. Mas respeito teu ponto de vista. Abraço.

Deixe seu comentário

Ir para o topo