jul/2022

Como Ronaldo Barcellos criou um clássico da discoteca

Por André Barcinski

Como Ronaldo Barcellos criou um clássico da discoteca

Por André Barcinski

Ronaldo Barcellos é uma grande figura. Cantor, compositor, trompetista, começou na cena de bailes dos subúrbios do Rio na virada dos anos 60 para os 70 e fez grande sucesso na década de 90 com a banda Ronaldo e os Barcellos, que formou com os filhos.

Entrevistei Ronaldo recentemente para um projeto (ainda não posso revelar o que é), mas decidi dividir com vocês uma história muito legal que ele me contou sobre uma música que sempre me fascinou: “Black Coco”.

Assim como milhões de brasileiros, vi o clipe de “Black Coco” na TV em 1978. Eu tinha dez anos. Na época, a discoteca imperava, e foi demais ver aquela versão brasileira da disco, com o pessoal dançando numa praia e cortando cocos com peixeiras que desciam no ritmo das batidas. A música fez muito sucesso e acabou na trilha da novela “Te Contei?”

Quando teve a ideia de compor “Black Coco”, Ronaldo Barcellos vivia entre o Rio e São Paulo, trabalhando como músico de estúdio. Na capital paulista, recebia muitos trabalhos do amigo Lincoln Olivetti, tecladista e arranjador.

Ronaldo e Lincoln se conheceram ainda adolescentes, em 1967. O primeiro morava em Irajá e Lincoln em Olinda, bairro de Nilópolis. Lincoln tinha 13 anos, mas já comandava um dos conjuntos de baile mais famosos da região. Ronaldo era um ano mais velho e tocava trompete e cantava na banda Seven Sound Music. Lincoln gostou da voz “black” de Ronaldo e o convidou para cantar em seu conjunto.

A parceria se tornou uma grande amizade. Em meados dos anos 70, Lincoln estava em São Paulo, para onde tinha ido em 73, a convite do músico paraguaio Papi, para trabalhar em um disco de Antônio Marcos (é de Lincoln o violão na abertura de “O Homem de Nazareth”, grande sucesso de Antônio Marcos). Lincoln passou a chamar Ronaldo para tocar e cantar em discos de Vanusa, Antônio Marcos e Wilson Simonal.

Um dia, Ronaldo foi ao Rio visitar os filhos. Na volta, no ônibus, começou a pensar numa batida que juntasse a discoteca a um gênero tradicional nordestino, o coco. E pensou numa letra que, à primeira vista, parecia não fazer sentido algum, ms que acabou se tornando um ícone da disco nacional: “Black coco / Black cocota!”

Ronaldo chegou a São Paulo e mostrou a ideia para Lincoln, que se empolgou: “Puta que pariu, isso é um sucesso mundial!” Lincoln sentou no piano, fez o arranjo (muito inspirado em “Rock Your Baby”, sucesso na voz de George McRae) e, no dia seguinte, gravou a música num estúdio no Largo de Santa Cecilia com a banda Painel de Controle (da qual Papi fazia parte).

“Black Coco” estourou. “Foi o meu primeiro sucesso, foi o primeiro sucesso do Lincoln, foi meu primeiro carro, foi meu primeiro tudo”, lembra Ronaldo. “Lincoln sempre dizia que foi graças a ‘Black Coco’ que ele teve grana pra montar o Guerenguê (primeiro estúdio de Lincoln, em Jacarepaguá, onde ele gravaria discos icônicos de Tim Maia, Roberto Carlos, Sandra de Sá e tantos outros)”.

Um ótimo fim de semana a todas e todos.

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