Meu disco favorito de boleros não foi gravado no México e não foi cantado por Miguel Aceves Mejía, Lucho Gatica, Armando Manzanero ou nenhum outro grande ídolo do gênero. Foi gravado, acredite, na Vila Mariana, em São Paulo, e não contou com nenhum cantor, músico ou arranjador mexicano.
O disco é “El Romantico de America”, gravado por Nelson Ned e lançado pelo selo brasileiro Movieplay em 1993 (não confunda com o álbum homônimo lançado nos EUA, em 1977). Tem 18 faixas clássicas do gênero, como “El Reloj”, “Perfume de Gardenia” e “Perfidia”.
É praticamente inacreditável que um disco tão lindamente tocado, cantado e produzido, de um gênero tão representativo da cultura hispânica, tenha sido gravado no Brasil por brasileiros. Seria como se um maravilhoso disco de samba, que rivalizasse em qualidade com qualquer LP de Martinho da Vila ou Beth Carvalho, tivesse sido gravado por mexicanos em Guadalajara.
O disco é prova inequívoca da extrema qualidade da indústria brasileira do disco e de nossos instrumentistas e arranjadores. E mostra que até uma gravadora modesta como a Movieplay, que estava longe de ser uma gigante do mercado, investia pesado na qualidade de seus lançamentos.
A lista de créditos do disco é uma verdadeira constelação de talentos. Vamos a ela:
Para começar: a produção foi dividida entre dois músicos excepcionais e com currículos imensos: Jorge Gambier (Benito Di Paula, Wando, Wilson Simonal) e José Carlos Mendes Alves, o Ringo (Sérgio Reis, Luis Miguel, Dominguinhos).
Os arranjos foram divididos entre três maestros talentosíssimos: Waldemiro Lemke, José Paulo Soares (o “Picapau”) e Otavio Basso. Difícil achar um disco brasileiro – especialmente gravado em São Paulo – entre o fim dos anos 1960 e os anos 2000 que não tivesse o nome de um deles nos créditos. Lemke fez o arranjo de “Feelings” (Morris Albert), Soares trabalhou com Ray Conniff e Basso fez só o arranjo de “Pense em Mim”.
Baixo: Darcio Ract (há 30 anos na banda de Roberto Carlos), Sylvio Mazzuca Jr. (Gal Costa, Ivan Lins) e Umberto Carezzato (da banda Os Carbonos).
Bateria: Albino Infantozzi (Fafá de Belém, Nelson Ned e incontáveis discos de sertanejo), Maguinho Alcântara (Simone, Djava, Chico Buarque, Johnny Alf) e Nelson Ned Jr. (excelente baterista, que tocou com o pai).
Guitarra: Antenor Gandra (Raul Seixas, Cassiano, Roberto Carlos), Elias Almeida (Roberto Carlos, Jane Duboc, Walter Franco).
Harpa: Norma Holtzer (Sinfônica Mozarteum de Salzburgo, OSESP, Ray Charles, Tony Bennett).
Trompa: Mario Sergio Rocha (Elton Medeiros, Eduardo Gudin, Léa Freire, Cauby Peixoto).
Oboé: Salvador Masano (Filarmônica de São Paulo).
Percussão: Luiz Rabello (Roberto Carlos, Simone, Filarmônica Bachiana).
Piano: Jota Resende (Ed Motta, Ney Matogrosso) e Mario Carezzato (integrante do grupo Os Carbonos).
Saxofone: Ubaldo Versolato (Banda Mantiqueira, Nelson Ayres, Roberto Carlos, Tom Jobim).
Coral: além de Gambier e Ringo, o coro tem três cantoras que fizeram história nos estúdios paulistanos, cantando em centenas de discos: Angela Marcia, Silvinha Araújo (esposa de Eduardo Araújo) e Tania Lemke (filha do maestro Waldemiro Lemke).
“El Romantico de America” foi uma tentativa de Nelson Ned de emplacar mais um disco de sucesso no mercado latino-americano. Naquela época, ele estava com a carreira em declínio, já não vendia tantos discos quanto nas décadas de 1970 e 1980 e teve a ideia de gravar este disco de boleros, mas as vendas foram abaixo do esperado. Isso, no entanto, não tira o brilho do disco, um dos maiores da carreira de Nelson Ned.
Um ótimo dia a todas e todos.
18 comentários em "Bolero é coisa nossa!"
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“Seria como se um maravilhoso disco de samba, que rivalizasse em qualidade com qualquer LP de Martinho da Vila ou Beth Carvalho, tivesse sido gravado por mexicanos em Guadalajara.” Sensacional!
E não é?
Realmente uma qualidade absurda nessas gravações. Bela dica, obrigado sempre Barça!
Demais, né?
Ouvindo esse disco deu vontade de abrir uma cerveja aqui no trabalho mesmo hahaha. Ansioso pelo seu livro do Nelson. Abraço!
Olha lá, hein, não vai ser despedido por embriaguez no trabalho!
Nelsão tá a cara de um jovem Brian Johnson na foto da matéria.
Hahahahaha, parece mesmo.
André, e uma outra curiosidade: Nos seus respectivos auges, quem fez mais sucesso no Exterior: Nélson Ned ou o Roberto Carlos?
RC fez sucesso por muito mais tempo, mas acho que não chegou a cantar em estádios de futebol no México. O dono da editora Vitale me disse que, no auge, Ned fez mais sucesso no exterior, mas que RC, por ter tido uma carreira mais longa, vendeu mais discos fora.
Barça, eu estou louco ou o Jorge Gambier produziu o segundo disco da Gretchen (Outra vez mulher)?
Não está louco não, Gambier trabalhou pra Copacabana.
Vou atrás desse disco… Nelson tinha uma voz incrível, e era um personagem fascinante! Abraço, André.
Tem nas plataformas, é fácil achar…
André, além do Nélson Ned, o Altemar Dutra também fez muito sucesso no exterior gravando boleros, não foi?
Sim, Altemar gravou muito em espanhol, mas não acho que fez tanto sucesso quanto o Nelson Ned.
Fala, Barça! Só um causo (long story short) –
no Chile, nosso ônibus passou perto de um ginásio/estádio sei lá e o guia chileno manda em portuñol: Aqui se apresentou “el más grande” cantor brasileño. Roberto Carlos? No, Nelson Ned!!!”
*como tava todo mundo torto de vinho, rachamos o bico com o trocadilho infame
Muito bom!