jun/2022

Jim Thompson, falido e fracassado, reinventou a “pulp fiction”

Por André Barcinski

Jim Thompson, falido e fracassado, reinventou a “pulp fiction”

Por André Barcinski

Esses dias, fiz no site um curso sobre o escritor “pulp” Jim Thompson (1906-1977) e reli a biografia dele, “Savage Art”, escrita por Robert Polito e lançada em 1995. Thompson é um de meus heróis, autor de alguns dos melhores e mais selvagens livros policiais já escritos, como “O Assassino Dentro de Mim”, “1280 Almas”, “Os Implacáveis” e “After Dark, My Sweet”, além de corroteirista de meus dois filmes prediletos de Stanley Kubrick, “O Grande Golpe” e “Glória Feita de Sangue”.

Relendo o livro de Polito, fiquei intrigado com uma passagem importante da vida de Thompson, que começa em 1952, quando ele trabalha para a Lion Books, uma editora de romances “pulp” (livros impressos em papel-jornal e vendidos em banca de jornal) chefiada por um editor chamado Arnold Hano.

À época, Thompson tinha 46 anos e uma carreira literária em declínio. Havia escrito três romances, o autobiográfico “Now and on Earth” (1942) e os policiais “Heed the Thunder” (1946) e “Nothing More Than Murder” (1949). Desses, só o último fez algum barulho, mas não foi o estouro de crítica que Thompson esperava. Em 1952, ele estava, como de hábito, falido e se sentindo um fracassado. E como fazia desde a adolescência, afogou a tristeza em oceanos de uísque. Thompson já havia sido internado mais de 30 vezes em hospitais e clínicas para tratar de problemas com o álcool.

Mas, assim que chegou à Lion Books, algo se acendeu dentro de Jim Thompson. E, num glorioso período de 19 meses, ele escreveu nada menos de doze romances, incluindo obras-primas como “O Assassino Dentro de Mim”, “Savage Night”, “The Criminal”, “A Hell of a Woman” e “After Dark, My Sweet”.

Que ninguém pense que a rapidez da escrita prejudicou a qualidade dos livros. Pelo contrário: foi um período em que Jim Thompson reinventou a literatura policial, experimentando com narrações em primeira pessoa que absorviam a insanidade dos personagens e transportavam o leitor para o inferno pessoal dos protagonistas. As histórias continham múltiplos narradores, narradores mortos (alô, Brás Cubas!) e de dupla personalidade (em “A Hell of a Woman”, o protagonista sofre um colapso nervoso e a narrativa se divide em duas, uma para cada personalidade).

A crítica literária não costumava prestar muita atenção à literatura “pulp”, considerada apelativa e de baixa qualidade, mas alguns críticos perceberam a genialidade de Thompson: no “The New York Times”, o autor e crítico Anthony Boucher escreveu, sobre “Savage Night”: “Escrito com vigor, desviando do realismo para um final peculiar e surrealista de puro horror Guignol. Curioso que um livro ‘pulp’ de consumo de massa contenha a escrita mais experimental que tenho visto atualmente em romances de suspense”.

Jim Thompson não foi o único grande escritor que publicou pela Lion Books naquele período: a lista de autores incluía Harlan Ellison (que escreveria alguns dos melhores episódios de “Star Trek” e da série de TV de Alfred Hitchcock), David Goodis (autor de “Atire no Pianista”, filmado por François Truffaut), e Robert Bloch (que em 1959 escreveria “Psicose”).

O período de Thompson com a Lion não durou muito: Hano saiu da editora, e o mercado de “pulp fiction” entrou em declínio. Thompson ainda escreveu grandes livros, como “Os Imorais” (1963) e “1280 Almas” (1964), mas nunca conseguiu replicar a sequência e qualidade daqueles 19 meses mágicos. Morreu em 1977, aos 70 anos, falido e esquecido. À época, nenhum livro dele estava em catálogo nos Estados Unidos.

A ressurreição crítica de Jim Thompson aconteceria no fim dos anos 1980, quando alguns livros foram relançados e autores como James Ellroy e Stephen King o citaram como referência. Em 1990, Stephen Frears dirigiu uma ótima adaptação de “Os Imorais”, e o culto a Jim Thompson começou.

Fica a pergunta: por que Thompson escreveu tanto e tão bem durante aqueles 19 meses? Alguns especialistas na obra dele, incluindo o biógrafo, Robert Polito, acham que o esquema “padronizado” da Lion Books, que comissionava histórias com temas, prazos e número de páginas pré-determinados, ajudou Thompson. O editor, Harold Hano, pedia algo como “A história de um assassino serial, para entrega daqui a dois meses, com 150 páginas”. Thompson deixava a imaginação voar e voltava com “O Assassino Dentro de Mim”. O fato de os livros serem vendidos em banca de jornal a um preço ridículo (à época, 25 centavos de dólar) libertava os autores das preocupações comerciais, e eles se permitiam experimentar com a narrativa e temas pesados e controversos.

Ou seja: arte precisa de liberdade, mas, algumas vezes, a verdadeira liberdade artística está nos projetos mais populares e baratos. E a “pulp fiction” foi prova disso.

Um ótimo fim de semana a todas e todos.

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