Jim Thompson, falido e fracassado, reinventou a “pulp fiction”
Esses dias, fiz no site um curso sobre o escritor “pulp” Jim Thompson (1906-1977) e reli a biografia dele, “Savage Art”, escrita por Robert Polito e lançada em 1995. Thompson é um de meus heróis, autor de alguns dos melhores e mais selvagens livros policiais já escritos, como “O Assassino Dentro de Mim”, “1280 Almas”, “Os Implacáveis” e “After Dark, My Sweet”, além de corroteirista de meus dois filmes prediletos de Stanley Kubrick, “O Grande Golpe” e “Glória Feita de Sangue”.
Relendo o livro de Polito, fiquei intrigado com uma passagem importante da vida de Thompson, que começa em 1952, quando ele trabalha para a Lion Books, uma editora de romances “pulp” (livros impressos em papel-jornal e vendidos em banca de jornal) chefiada por um editor chamado Arnold Hano.
À época, Thompson tinha 46 anos e uma carreira literária em declínio. Havia escrito três romances, o autobiográfico “Now and on Earth” (1942) e os policiais “Heed the Thunder” (1946) e “Nothing More Than Murder” (1949). Desses, só o último fez algum barulho, mas não foi o estouro de crítica que Thompson esperava. Em 1952, ele estava, como de hábito, falido e se sentindo um fracassado. E como fazia desde a adolescência, afogou a tristeza em oceanos de uísque. Thompson já havia sido internado mais de 30 vezes em hospitais e clínicas para tratar de problemas com o álcool.
Mas, assim que chegou à Lion Books, algo se acendeu dentro de Jim Thompson. E, num glorioso período de 19 meses, ele escreveu nada menos de doze romances, incluindo obras-primas como “O Assassino Dentro de Mim”, “Savage Night”, “The Criminal”, “A Hell of a Woman” e “After Dark, My Sweet”.
Que ninguém pense que a rapidez da escrita prejudicou a qualidade dos livros. Pelo contrário: foi um período em que Jim Thompson reinventou a literatura policial, experimentando com narrações em primeira pessoa que absorviam a insanidade dos personagens e transportavam o leitor para o inferno pessoal dos protagonistas. As histórias continham múltiplos narradores, narradores mortos (alô, Brás Cubas!) e de dupla personalidade (em “A Hell of a Woman”, o protagonista sofre um colapso nervoso e a narrativa se divide em duas, uma para cada personalidade).
A crítica literária não costumava prestar muita atenção à literatura “pulp”, considerada apelativa e de baixa qualidade, mas alguns críticos perceberam a genialidade de Thompson: no “The New York Times”, o autor e crítico Anthony Boucher escreveu, sobre “Savage Night”: “Escrito com vigor, desviando do realismo para um final peculiar e surrealista de puro horror Guignol. Curioso que um livro ‘pulp’ de consumo de massa contenha a escrita mais experimental que tenho visto atualmente em romances de suspense”.

Jim Thompson não foi o único grande escritor que publicou pela Lion Books naquele período: a lista de autores incluía Harlan Ellison (que escreveria alguns dos melhores episódios de “Star Trek” e da série de TV de Alfred Hitchcock), David Goodis (autor de “Atire no Pianista”, filmado por François Truffaut), e Robert Bloch (que em 1959 escreveria “Psicose”).
O período de Thompson com a Lion não durou muito: Hano saiu da editora, e o mercado de “pulp fiction” entrou em declínio. Thompson ainda escreveu grandes livros, como “Os Imorais” (1963) e “1280 Almas” (1964), mas nunca conseguiu replicar a sequência e qualidade daqueles 19 meses mágicos. Morreu em 1977, aos 70 anos, falido e esquecido. À época, nenhum livro dele estava em catálogo nos Estados Unidos.
A ressurreição crítica de Jim Thompson aconteceria no fim dos anos 1980, quando alguns livros foram relançados e autores como James Ellroy e Stephen King o citaram como referência. Em 1990, Stephen Frears dirigiu uma ótima adaptação de “Os Imorais”, e o culto a Jim Thompson começou.
Fica a pergunta: por que Thompson escreveu tanto e tão bem durante aqueles 19 meses? Alguns especialistas na obra dele, incluindo o biógrafo, Robert Polito, acham que o esquema “padronizado” da Lion Books, que comissionava histórias com temas, prazos e número de páginas pré-determinados, ajudou Thompson. O editor, Harold Hano, pedia algo como “A história de um assassino serial, para entrega daqui a dois meses, com 150 páginas”. Thompson deixava a imaginação voar e voltava com “O Assassino Dentro de Mim”. O fato de os livros serem vendidos em banca de jornal a um preço ridículo (à época, 25 centavos de dólar) libertava os autores das preocupações comerciais, e eles se permitiam experimentar com a narrativa e temas pesados e controversos.
Ou seja: arte precisa de liberdade, mas, algumas vezes, a verdadeira liberdade artística está nos projetos mais populares e baratos. E a “pulp fiction” foi prova disso.
Um ótimo fim de semana a todas e todos.
10 comentários em "Jim Thompson, falido e fracassado, reinventou a “pulp fiction”"
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Jim Thompson é Rei! As capas da foto do post são espetaculares, André! Você sabe que edições são essas?
Não são as primeiras, certeza.
Li “1280 Almas” por indicação sua, e adorei! Até hoje procuro sempre por livros do Thompson na internet ou em sebos…
Dá pra achar uns quatro em português.
André, mais uma vez parabéns e obrigado pelo curso sobre Jim Thompson. Foi incrível!
Que legal que gostou, Moacir. Abraço!
Barça, você tem algum post aqui ou da época da UOL que liste seus livros policiais favoritos? Forte abraço!
Não são todos policiais, mas aqui tem alguns bem bacanas…
https://autoreselivros.wordpress.com/2011/03/22/dez-leituras-de-arrepiar/
Bom dia Xará, demais esse texto. Deu vontade imediata de ler os livros. Vou procurar para ver se acho as versões traduzidas. Uma pergunta. Podemos considerar Rubem Fonseca um escritor “pulp”? Quais outros brasileiros se encaixam nesse estilo. Abração.
Fonseca fez grandes livros policiais, mas não pode ser considerado um “pulp” porque, se não me engano, não lançou livros impressos em papel-jornal e vendidos em banca. No Brasil, maior nome dos “pulps” é Rubens Francisco Luchetti, autor de centenas de livros de terror, suspense, policiais, faroestes… Também foi roteirista de alguns filmes do Zé do Caixão.