Em 5 de maio, o grupo britânico Portishead subiu ao palco da O2 Arena, em Bristol, cidade natal da banda, e tocou cinco músicas. O show todo não levou mais de meia hora e teve por objetivo arrecadar fundos para a entidade War Child, que está fazendo um trabalho de assistência a ucranianos prejudicados pelos ataques russos. O Portishead foi a penúltima banda a se apresentar e tocou antes do Idles. Os 1200 ingressos foram sorteados entre as milhares de pessoas que colaboraram com a campanha.
E por que um show tão curto e sem produção – palco espartano, sem o festival de luzes e efeitos visuais que costumam acompanhar a banda – causou tanto frisson entre fãs do Portishead? Simples: porque foi a primeira vez em sete anos que Beth Gibbons (voz), Adrian Utley (guitarra) e Geoff Barrow (bateria) tocaram juntos em sete anos. E da última vez que isso aconteceu – um show do Portishead depois de sete anos – em 2005, prenunciou o lançamento de um novo disco, “Third” (2008).
Será que vem disco novo por aí?
Já não é sem tempo. Quem acompanha o Portishead sabe que é um grupo tão genial quanto seletivo em seus lançamentos. Numa carreira de 31 anos, lançou apenas três discos de estúdio, mas três obras-primas: “Dummy” (1994), “Portishead” (1997) e “Third” (2008), além de um lindo disco a vivo, “Roseland NYC Live” (1998).
Nos últimos 14 anos, desde “Third”, a fissura por novos trabalhos da banda foi, em parte, aplacada por trabalhos solo dos integrantes: Utley tocou com o grupo de jazz Stonephace, fez trilhas de filmes e produziu e tocou em discos de Anna Calvi, Perfume Genius e Algiers; Barrow lançou três álbuns fabulosos com o grupo de rock eletrônico BEAK> (atenção, eles vêm para o Primavera em São Paulo!), enquanto Beth é a mais sumida, tendo colaborado em discos de Kendrick Lamar e cantado – em polonês! – uma sinfonia do compositor Henryk Górecki, gravada com a Orquestra Sinfônica da Rádio Nacional da Polônia.
Foi emocionante ver os três juntos num palco de novo. Eles tocaram apenas cinco músicas – “Mysteroons”, “Magic Doors”, “Wandering Star”, “The Rip” e “Roads”, mas deixaram os fãs com esperança de ouvir novas músicas em breve. Assista:
E sempre que penso em Portishead, lembro uma declaração de Serge Pizzorno, guitarrista do grupo Kasabian, depois que viu um show do grupo em 2007, no festival All Tomorrow’s Parties, em que a banda estreou faixas do até então inédito disco “Third”:
“Eu fui ao show e alguém me deu ketamina, que eu nunca havia experimentado. Foi insano. Eles tocaram ‘Machine Gun’ e eu tive um momento de: ‘Isso é o futuro!’. Era tudo tão minimalista, com aquele incrível som de sintetizador de John Carpenter. Meus joelhos tinham virado geléia, havia luzes estroboscópicas. Eu pude vislumbrar um som, e precisava daquele álbum naquele minuto, mas tive de esperar seis meses, e quando chegou, ficou no repeat por um tempão. É uma aventura, e muito assustadora. Geoff Barrow é um produtor de extremo bom gosto, que sempre toma as decisões corretas. Ali posso ouvir Lalo Schifrin, Silver Apples, Hawkwind, coisas e atmosferas que amo. Tudo cria essa sensação e essa atmosfera: a edição angulosa, o uso de sintetizadores modulares, as afinações bizarras (…) E a voz de Beth Gibbons é a peça que torna tudo tão único. Ela é como um anjo-folk-druida. Você sente a dor naquilo, sua voz é uma arma, é puro mistério (…) O disco é uma obra de arte e uma afirmação de propósito, uma lição para você nunca se desviar de seu caminho (…) O disco me amedronta, e eu o amo por isso.” Um ótimo fim de semana a todas e todos.
12 comentários em "Portishead: raro e íntimo"
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Barcinski, que maravilha ler esse texto!
Eu sou suspeita para falar dessa banda, Uma das minhas preferidas. Adoro Beth Gibbons. Ela é maravilhosa. . Fui ver um show dela no Tim Festival, acho que de 2003 (?).
Infelizmente, nunca consegui conferir um show da Portishead. Esperando que role coisa nova em breve!
Acredita que nunca vi também?
É uma banda única, a Beth Gibbons cantando me faz pensar nas coisas com cuidado, ela é das poucas que consegue despertar sentimentos intensos e angustiantes quando canta. É prazeroso sentir a dor na voz dela, difícil de explicar. Belo texto, Barcinski! Vou assistir agora pra matar as saudades dessa banda incrível. Abs
É curto, mas legal demais.
Confesso que nunca prestei atenção na banda, mas depois desse texto, vou atrás… Só pra constar, conheci (e aprendi a amar) os Cramps e o The War on Drugs por indicação sua, André. Obrigado e um abraço!
Acho que vai gostar também…
André, e o novo filme do Robert Eggers? Achei fantástico! Abraço.
Cara, não me animei ainda, vale a pena?
Que lindo, Barça.
Portishead, afinal, desperta as sombras e a angústia do inconsciente, debelando uma verdadeira guerra contra a realidade e suscitando uma nova proposta de percepção.
Espero muito um dia vê-los ao vivo – de preferência sob o efeito de ketamina.. hahahahaha…
Abraços
Acho melhor sem!
André,
Sabe quando a gente precisa ouvir uma música, mas não sabe qual é?
Você me relembrou de uma banda que se encaixou perfeitamente nessa necessidade.
“The Rip” é uma das maiores músicas dos anos 2010.
Valeu, bom fim de semana!
É sim.