mar/2022

J.T. Leroy: a grande farsa da literatura

Por André Barcinski

J.T. Leroy: a grande farsa da literatura

Por André Barcinski

Há dez anos, o Brasil recebeu pela primeira vez a visita da escritora norte-americana Laura Albert. Se o nome de Albert não é tão conhecido, o de seu pseudônimo, J.T. Leroy, ficou famoso no mundo todo. Leroy fez grande sucesso no fim dos anos 1990 com histórias supostamente autobiográficas sobre drogas, crime prostituição. O que poucos sabiam é que J.T. Leroy era um personagem inventado, fruto da imaginação de Albert.

Em 2012, entrevistei Laura Albert para a “Folha”, e sua história é incrível.

Foi o maior escândalo literário dos últimos tempos. Por dez anos, J.T. Leroy, um adolescente travestido e viciado em drogas, cuja mãe o forçara a se prostituir em paradas de caminhoneiros, fez sucesso com relatos crus e pesados sobre sua vida.

Por volta de 1996, Leroy começou a escrever artigos para jornais e revistas. Seu primeiro romance, “Sarah” (1999), recebeu ótimas críticas e caiu no gosto de celebridades como Madonna, Lou Reed, Courtney Love e Shirley Manson, da banda Garbage (que inclusive fez uma música para Leroy).

Seu segundo livro, “The Heart is Deceitful Above all Things” (no Brasil, “Maldito Coração”), virou um filme, dirigido por Asia Argento e com participações de Peter Fonda, Ben Foster e Wynona Ryder.

Em 2006, a bomba: J.T. Leroy não existia. Ou melhor: existia como obra de ficção, saída da cabeça de Laura Albert, uma operadora de telessexo, cantora de punk rock e escritora de pouco sucesso, que não só inventou o personagem, como passou a “interpretá-lo” em conversas telefônicas, mantidas com várias pessoas ao longo de anos.

Quando a demanda por aparições públicas de J.T. cresceu, Albert convenceu a jovem Savannah Knoop, irmã de seu namorado, a usar uma peruca e encarnar o adolescente escritor.

Nesse fim de semana, Laura Albert estará na Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em Brasília, relançando os dois primeiros livros, pela primeira vez com seu próprio nome. “O Brasil é o primeiro lugar onde vou falar sobre os livros. Espero que as pessoas vejam os livros pelo que eles são, e não pelo que a mídia os tornou”, disse, em entrevista exclusiva à Folha.

ENTREVISTA COM LAURA ALBERT

Laura Albert, 46, se diz cansada de responder à pergunta “Por que você inventou J.T. Leroy?”. “Ele não foi uma farsa, como diz a mídia”, afirma a autora, por telefone, de sua casa em São Francisco, na Califórnia. “Prefiro vê-lo como um véu, um disfarce que usei para poder falar de coisas que me atormentavam e que eu não conseguia pôr no papel enquanto Laura Albert. É como dizia Oscar Wilde: ‘Dê ao homem uma máscara, e ele lhe dirá a verdade’.”

Albert se diz ansiosa com a viagem ao Brasil. “Será a minha primeira vez aí. Em 2005, J.T. foi ao Brasil, mas eu não. Fiquei arrasada.” Claro que, por “J.T.”, ela quer dizer Savannah Knoop, que “interpretava” J.T. em aparições públicas.

“Recebo muitas cartas do Brasil, de pessoas que se emocionaram e foram tocadas por meus livros”, diz Albert. “Minha maior esperança é que as pessoas agora avaliem os livros pela qualidade do texto, e não pelo escândalo que eles causaram.”

Quando lembro a Laura que o escândalo foi causado por ela mesma, ao “inventar” J.T. e enganar meio mundo, ela diz: “Mas eu sempre disse que os livros eram obras de ficção. J.T. foi só uma voz que eu inventei.”

Seria um caso de dupla personalidade?  “Acho que meu caso transcende a dupla personalidade” diz a autora. “Foi um novo tipo de desordem, que não consigo definir.”

Albert diz que muitas das histórias escabrosas que colocou nos livros de Leroy foram inspiradas em fatos que presenciou em suas diversas internações em clínicas psiquiátricas. Ela admite ser uma mentirosa compulsiva desde a infância e conta que ligava para serviços de auxílio psiquiátrico e se fazia passar por diferentes pessoas, criando vozes diferentes para cada uma delas.

Por anos, Albert criou uma voz para J.T., que usou em longas conversas telefônicas com jornalistas, fãs e celebridades (chegou a dar uma entrevista para a “Folha”, em 2002). Ela/ele manteve um intenso diálogo com Billy Corgan, líder do grupo de rock Smashing Pumpkins, até que Corgan descobriu que J.T. e Albert eram a mesma pessoa.

Albert chora quando fala de Corgan: “Billy foi a pessoa mais doce e compreensiva que já conheci. Um anjo. Ele entendeu a situação de cara e não se magoou. Pelo contrário. Ele também vem de uma situação familiar complicada e disse que me entendia perfeitamente. É um dos meus melhores amigos e me deu muita força.”

Depois da revelação de que J.T. Leroy era uma farsa, a vida de Laura Albert entrou em parafuso. Ela se separou do companheiro de muitos anos, Geoffrey Knoop, um músico com quem tocava em bandas punks e que também teve participação ativa na criação de J.T. Leroy. Albert e Knoop têm um filho.

Albert também brigou com Savannah Knoop, a “figura pública” de J.T. Leroy. Savannah publicou, em 2008, um livro contando os bastidores de toda a história. “Nós éramos muito próximas”, diz Albert. “Mas a situação toda nos separou. Sabe, foi muito difícil para Savannah. Num dia ela estava no tapete vermelho em Cannes, andando à frente de Angelina Jolie. Logo depois, estava trabalhando de garçonete. Não é qualquer um que suporta isso. Ela pirou.”

Laura Albert diz que está colaborando com Jeff Feurzeig (diretor de um ótimo filme sobre o perturbado músico Daniel Johnston) em um documentário que pretende contar toda a história de J.T. Leroy. “Quero contar tudo: minha infância, as muitas internações por que passei em clínicas, minha história no punk rock (ela é figurinha carimbada da cena punk de São Francisco), tudo. Quero passar essa história a limpo.”

15 comentários em "J.T. Leroy: a grande farsa da literatura"

Deixe seu comentário

Ir para o topo