jan/2022

“Soy Cuba”: o clássico “esquecido” da Guerra Fria

Por André Barcinski

“Soy Cuba”: o clássico “esquecido” da Guerra Fria

Por André Barcinski

A plataforma de streaming Belas Artes à la Carte exibe um dos grandes filmes “perdidos” do cinema: “Soy Cuba” (1964).

Uma coprodução entre Cuba e União Soviética, o filme foi dirigido em Cuba pelo famoso cineasta soviético Mikhail Kalatozov (1903-1973) e concebido, no auge da Guerra Fria, para servir de propaganda à revolução cubana.

Quando desembarcou em Havana, em 1961, Kalatozov já era um cineasta famoso, tendo vencido a Palma de Ouro em Cannes em 1958 pelo grande filme de guerra “Quando Voam as Cegonhas”. Ele foi a Cuba acompanhado de seu colaborador frequente, o genial fotógrafo Sergey Urusevsky (1908-1974). Juntos, imaginaram um filme lúdico e criativo que contaria quatro histórias sobre personagens cubanos afetados pela revolução popular que tirou o ditador Fulgencio Batista e estabeleceu outra ditadura, a de Fidel Castro.

O filme é extraordinariamente bonito. Urusevsky aproveitou ao máximo os céus azuis e as paisagens verdejantes dos campos cubanos, criando uma fotografia em preto e branco altamente contrastada e impactante. Seus planos-sequência (cenas longas e sem cortes) estão entre as mais criativas já filmadas. Uma aula de cinema.

Visto hoje, quase 60 anos depois de sua produção e após o colapso da União Soviética, “Soy Cuba” parece um tanto ingênuo e panfletário. Mas a força de suas imagens permanece.

Lançado em 1964, foi duramente criticado em Cuba por apresentar uma visão “romântica” do povo cubano, e malhado na União Soviética por mostrar cenas de luxúria capitalista pré-Revolução (há uma incrível cena na piscina de luxo de um hotel). Por quase 30 anos, permaneceu trancado em arquivos em Havana e Moscou, até ser ressuscitado – ironia das ironias – por uma distribuidora norte-americana, que recebeu apoio de cineastas como Martin Scorsese e Francis Ford Coppola, deslumbrados com a potência visual da obra de Kalatozov e Urusevsky. Lançado em VHS e depois DVD, “Soy Cuba” é hoje considerado um dos filmes mais importantes dos anos 1960 e um marco no cinema político.

Sugiro assistir numa sessão dupla com o documentário “Soy Cuba: o Mamute Siberiano” (2004), do brasileiro Vicente Ferraz, disponível na íntegra no Youtube.

Ferraz foi a Cuba em 2001 e entrevistou boa parte do elenco e equipe técnica do filme, e o resultado é um documento importante sobre os bastidores de “Soy Cuba”. Repleto de imagens de bastidores e fotografias das filmagens, Ferraz conta não só a história da produção do filme, mas também de alguns dos profissionais envolvidos, como Kalatozov, Urusevsky e a esposa, Belka (que trabalhou na produção), e os roteiristas Enrique Pineda Barnet e o poeta Yevgeny Yevtushenko. É uma história e tanto.

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