“Soy Cuba”: o clássico “esquecido” da Guerra Fria
A plataforma de streaming Belas Artes à la Carte exibe um dos grandes filmes “perdidos” do cinema: “Soy Cuba” (1964).
Uma coprodução entre Cuba e União Soviética, o filme foi dirigido em Cuba pelo famoso cineasta soviético Mikhail Kalatozov (1903-1973) e concebido, no auge da Guerra Fria, para servir de propaganda à revolução cubana.
Quando desembarcou em Havana, em 1961, Kalatozov já era um cineasta famoso, tendo vencido a Palma de Ouro em Cannes em 1958 pelo grande filme de guerra “Quando Voam as Cegonhas”. Ele foi a Cuba acompanhado de seu colaborador frequente, o genial fotógrafo Sergey Urusevsky (1908-1974). Juntos, imaginaram um filme lúdico e criativo que contaria quatro histórias sobre personagens cubanos afetados pela revolução popular que tirou o ditador Fulgencio Batista e estabeleceu outra ditadura, a de Fidel Castro.
O filme é extraordinariamente bonito. Urusevsky aproveitou ao máximo os céus azuis e as paisagens verdejantes dos campos cubanos, criando uma fotografia em preto e branco altamente contrastada e impactante. Seus planos-sequência (cenas longas e sem cortes) estão entre as mais criativas já filmadas. Uma aula de cinema.
Visto hoje, quase 60 anos depois de sua produção e após o colapso da União Soviética, “Soy Cuba” parece um tanto ingênuo e panfletário. Mas a força de suas imagens permanece.
Lançado em 1964, foi duramente criticado em Cuba por apresentar uma visão “romântica” do povo cubano, e malhado na União Soviética por mostrar cenas de luxúria capitalista pré-Revolução (há uma incrível cena na piscina de luxo de um hotel). Por quase 30 anos, permaneceu trancado em arquivos em Havana e Moscou, até ser ressuscitado – ironia das ironias – por uma distribuidora norte-americana, que recebeu apoio de cineastas como Martin Scorsese e Francis Ford Coppola, deslumbrados com a potência visual da obra de Kalatozov e Urusevsky. Lançado em VHS e depois DVD, “Soy Cuba” é hoje considerado um dos filmes mais importantes dos anos 1960 e um marco no cinema político.
Sugiro assistir numa sessão dupla com o documentário “Soy Cuba: o Mamute Siberiano” (2004), do brasileiro Vicente Ferraz, disponível na íntegra no Youtube.
Ferraz foi a Cuba em 2001 e entrevistou boa parte do elenco e equipe técnica do filme, e o resultado é um documento importante sobre os bastidores de “Soy Cuba”. Repleto de imagens de bastidores e fotografias das filmagens, Ferraz conta não só a história da produção do filme, mas também de alguns dos profissionais envolvidos, como Kalatozov, Urusevsky e a esposa, Belka (que trabalhou na produção), e os roteiristas Enrique Pineda Barnet e o poeta Yevgeny Yevtushenko. É uma história e tanto.
3 comentários em "“Soy Cuba”: o clássico “esquecido” da Guerra Fria"
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Caramba, acabei de assistir e é uma cena mais linda que a outra. Me emocionei muito na cena em que o camponês ateia fogo na plantação de cana de açúcar. Obrigado pela dica, fez meu domingo ficar bem melhor.
Que legal que gostou!
Uma das cinco melhores direção de fotografia de todos os tempos, na minha opinião, ao lado de Gritos e Sussurros, Cidadão Kane, O Poderoso Chefão I e O Conformista.