Indústria do disco no Brasil era um oásis de talento
Não canso de me surpreender com a qualidade e eficiência da indústria do disco brasileira dos anos 1970 a 2000.
Estou imerso na produção de uma série documental sobre a dupla de compositores Michael Sullivan e Paulo Massadas e tenho pesquisado discos nos quais eles trabalharam antes da fama nos anos 1980, quando escreveram hits como “Um Dia de Domingo” (Gal Costa e Tim Maia), “Joga Fora” (Sandra de Sá), “Amor Perfeito” (Roberto Carlos), “Talismã” (Leandro e Leonardo), entre muitos outros.
Na virada dos anos 1970 para os 1980, os dois trabalharam como compositores para pequenos selos especializados em brega, forró e lambada. Um desses era o Jangada, um subselo da EMI-Odeon voltado para o público do Norte e Nordeste.
No Jangada, eles compuseram para artistas como Reginaldo Rossi, Tarcys de Andrade, Mara (sim, a Mara Maravilha, então com 14 anos!), Betto Douglas, Eloides, Evaldo Freire e muitos outros.
Analisando os créditos dos discos do Jangada e de outros selos populares do período, é impressionante a quantidade de gente talentosa envolvida na produção. São produtores, arranjadores, compositores, engenheiros de som, músicos e vocalistas de apoio que fizeram história na música brasileira participando de discos clássicos da MPB, mas que também emprestaram seus talentos para lançamentos mais humildes.
Vejam o exemplo de “As 14 Mais do Jangada – Volume 2”, coletânea lançada em 1984.

Na contracapa, os créditos do discos são um verdadeiro “Quem é Quem” da música brasileira:

Para começar, a produção é de Liebert Ferreira, baixista dos Fevers, autor de vários sucessos do grupo e produtor executivo de discos de Agnaldo Timóteo, Angela Maria e Fernando Mendes, entre muitos outros. Em 1984, Liebert era diretor do Jangada, em substituição a outro integrante dos Fevers, Miguel Plopschi, que no ano anterior tinha virado diretor artístico da RCA.
Nos créditos de produção, temos nomes como o próprio Michael Sullivan, Ronaldo (Golden Boys) Correa (cantor dos Golden Boys, um dos grupos vocais mais importantes da história da música brasileira, tendo gravado com Roberto Carlos, Ângela Maria, Cauby, Elis, Benito Di Paula e centenas de outros), Carlos Colla (compositor de hits para Roberto Carlos, Fafá de Belém, Alcione, Bruno e Marrone, Vanusa, Chitãozinho e Xororó e muitos outros) e até do apresentador de TV Edson “Bolinha” Cury (não era incomum gente de TV e rádio receber créditos de produção em troca de exposição em seus programas).
Entre os profissionais creditados nos arranjos estão Clelio Ribeiro (Roberto Carlos, Dick Farney, Elizeth Cardoso) e Jota Moraes (Gonzaguinha, Zeca Pagodinho, Ed Motta, Leila Pinheiro, Mauro Senise).
Entre as estrelas do selo Jangada estava a maranhense Eloides, que gravou um disco com a cantora Socorro Maranhão.

A turma que gravou esse LP é uma constelação do pop-rock brasileiro: os arranjos são de Otavio Basso (Roberto Carlos, Moacyr Franco, Amado Batista, e autor do arranjo de “Pense em Mim”, de Leandro e Leonardo), e a banda reúne simplesmente o guitarrista Faíska (Rita Lee, Fagner, Ney Matogrosso, Eduardo Araújo), o baterista Darcio Ract (há 30 anos na banda de Roberto Carlos) e o baterista Albino Infantozzi (Nelson Ned, Fábio Jr., Raul Seixas, Fafá de Belém).
Muitos profissionais que trabalharam nesses discos usavam pseudônimos, o que dificulta a tarefa de descobrir quem fez o quê. No disco “Não Me Deixem Morrer”, de Tarcys de Andrade, lançado em 1985, a faixa “Pense Bem” é creditada a Julio Cesar, Rodrigo Otavio e Beto Ferreira.

O que poucos sabem é que Julio Cesar e Rodrigo Otavio são os nomes dos primeiros filhos de Michael Sullivan. E “Beto Ferreira” era um pseudônimo frequentemente usado por Paulo Massadas.
Um ótimo dia a todos!
8 comentários em "Indústria do disco no Brasil era um oásis de talento"
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André, essa capa de disco do Tarcys Andrade hj em dia nunca seria do jeito que foi na época hehehehe
Mas acho muito legal essa justiça que está sendo feita ao Sullivan & Massadas, que na época do auge deles nos anos 1980 eram amados pelo público, mas odiados pela crítica, que achavam que eles eram os culpados pela “decadência da Música Brasileira” e para mostrar também que já existia música popular muito bem feita e bem sucedida em termos de vendas, muito antes dos Barões da Pisadinha, do Wesley Safadão e da sua querida “ídola” Juliette….
Um cara no Twitter disse tudo: “a capa tem uma vibe meio Pulp Fiction”! Quando ao Sullivan e Massadas, a série sai antes do meio do ano, acho que vai surpreender muita gente.
Essa séria sobre Sullivan e Massadas já está no ar? Já procurei no Globoplay, mas não encontro…
Só no segundo semestre.
Essa história de apresentadores “virarem” compositores em troca de favores gerou algumas parcerias bizarras. Um dos “autores” de algumas músicas do Nahim era o Valentino Guzzo (intérprete da Vovó Mafalda), que também era produtor do SBT. Segundo o próprio Nahim, Valentino “não sabia a diferença entre uma tuba e um violino”, mas era “tão gente boa que a gente dava as músicas pra ele assinar”
Sim, Valentino era “autor” também de várias músicas da Gretchen, mas assinava “V. Guzrick”. Conto isso no livro “Pavões Misteriosos”.
Outro dia ouvi o Sérgio Martins entrevistando o Luiz Carlini que afirmava ter participado de centenas de gravações, e algumas nem eram creditadas, pois tinha contrato com outra gravadora e fazia o “favor” a produtores amigos, colocando uma guitarra ou violão em alguma faixa de outros artistas, mas não podia “aparecer” para não se complicar.
Cara, isso rolava com todo mundo, era muito comum.