Três planos-sequência geniais – e um nem tanto
Esses dias, o cineasta Paul Schrader publicou em sua conta no Facebook um comentário muito interessante sobre o uso de planos-sequência no cinema (planos-sequências são tomadas longas e sem cortes, artifício que se popularizou nos últimos anos com o advento de câmeras leves e sistemas de estabilização de câmeras):
“Cerca de 35 anos atrás, havia uma fascinação de diretores com tomadas longas, inspiradas pelo pai das tomadas longas, ‘A Marca da Maldade’. Dois bons exemplos são ‘Os Bons Companheiros’ e ‘Pagamento Final’ (sim, eu tentei uma em ‘A Marca da Pantera’). Algumas eram muito boas, poucas eram extraordinárias (como os filmes que citei), e a maioria era contraproducente. Naquela época, eram consideradas marcas de excelência técnica (…) Agora, tomadas longas são apenas mais uma ferramenta brilhante no kit do cinema digital, frequentemente substituindo a verdadeiramente difícil tarefa de construir personagens e história.”
Tô com Schrader e não abro. Não é de hoje que percebo, em filmes e séries, uma utilização exagerada do plano-sequência. Como as novas câmeras, “gimbals” e “steadycams” são baratas e fáceis de usar, muita gente tem feito tomadas longas e sem cortes, mesmo em cenas em que elas não seriam necessárias.
O artifício, que sempre foi usado com razões específicas (dar dinamismo a certas sequências, mostrar cenas em “tempo real”, ressaltar acontecimentos simultâneos, etc.), agora virou uma simples firula técnica, sem alma e sem sentido.
Para comparar bons usos do plano-sequência a outros nem tanto, selecionei quatro exemplos. Os três primeiros são obras-primas do cinema. O quarto é uma excelente série, mas que traz um plano-sequência péssimo – e, bizarramente, celebrado em críticas e canais de Youtube como um grande prodígio técnico. Vamos a eles:
A Marca da Maldade (Orson Welles, 1958)
Schrader tem razão: este é, realmente, o Santo Graal dos planos-sequência. Tudo é perfeito: a descrição do local e arredores, a fluência dos movimentos (tanto da câmera quanto dos personagens), a maneira como Welles e o fotógrafo Russell Metty (um veterano que já havia rodado mais de cem filmes antes desse) mostra dois casais (um no carro e outro a pé), cujos destinos vão se cruzar. Enfim, é uma cena pensada como um plano-sequência e executada com maestria.
Soy Cuba (Mikhail Kalatozov, 1964)
A abertura do filme, fotografado por Sergey Urusevsky usando uma lente super grande angular, é das mais marcantes do cinema. Há um corte em 2:10, quando a imagem pula do bucolismo da natureza local para o luxo e ostentação da cobertura de um hotel, mas a fluência da câmera e a distorção das imagens conferem um ar quase psicodélico ao filme. Para quem quiser saber mais sobre a história fascinante dessa coprodução soviética e cubana, sugiro assistir ao doc “Soy Cuba: o Mamute Siberiano”, do brasileiro Vicente Ferraz, disponível no Youtube.
O Pagamento Final / Carlito’s Way (Brian De Palma, 1993)
Amo tudo sobre esse filme e, em especial, esta cena de perseguição e tiroteio filmada na estação Penn, em Nova York. Brian De Palma criou uma sequência em que a câmera não fica apenas no personagem de Pacino, mas anda por todo o cenário, focando em diversos personagens. A maneira como a cena vai crescendo em tensão à medida que os perseguidores se aproximam de Pacino (que precisa passar por eles para chegar a um trem) é incrível. E percebam que De Palma não vê problema em usar um corte em 2:26, mostrando o bandido que sobe as escadas. Ele poderia ter feito tudo numa sequência só? Claro que sim. Mas De Palma usa o que é melhor para a cena, não o melhor para seu ego. A fotografia é de Stephen H. Burum e a “steadycam” foi operada por Larry McConkey.
True Detective, temporada 1 (Cary Fukunaga, 2014)
Gosto demais dessa temporada da série policial “True Detective”, mas este plano-sequência, incensado por analista de Youtube, é um constrangimento. Engraçado que entrevistei Fukunaga uma vez, e, quando citei a cena, ele imediatamente começou a reclamar que não teve o tempo e as condições necessárias para filmar do jeito que queria. De fato, é pessimamente “blocada”, atuada e dirigida. Mesmo nas cenas mais caóticas (quando Matthew McConagughey está dentro da casa que está sendo alvejada por tiros), tudo parece estranhamente teatral: os personagens gritam um depois do outro, num jogral engessado e antinatural; os personagens que aparecem no fundo das cenas fazem movimentos estranhos, claramente orientados para “preencher” a imagem. Mas a pior parte, e uma que me deu vontade de desligar a TV quando vi, acontece a 2:20, quando McConaughey briga com dois homens imensos. Em total modo “Trapalhões”, cada um dos brutamontes desaba e não levanta mais ao levar UM mísero soco. Um dos caras tem um taco de beisebol na mão, mas fica deitadinho com dodói na nuca. Para adicionar uma “contagem regressiva” à cena – artifício banal usado para criar tensão – o roteirista inventou um patético telefonema em que McConaughey manda um policial estar em determinado local “em exatos noventa segundos”. Aposto que os analistas de Youtube dispararam seus cronômetros exatamente nessa hora, para ver se a cena duraria mesmo 90 segundos. Dá preguiça.
Um ótimo fim-de-semana a todos.
36 comentários em "Três planos-sequência geniais – e um nem tanto"
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Todos sensacionais, mas essa cena de A Marca da Maldade mostra porque Welles é o mais influente dos diretores. Além disso o filme é um dos melhores policiais de todos os tempos, ao lado de Céu e Inferno. do Kurosawa e Perseguidor Implacável, do Don Siegel, dentre outros..
Trio parada dura mesmo…
Fui rever os tais “socos” que citou no plano-sequência de True Detective e vi coronhadas, o primeiro recebeu na costela e se rendeu pra não levar tiro e o segundo recebeu a coronhada com a força de todo o impulso do corpo do policial . Ou seja, não foram meros socos, Barcinski. De resto, parabéns pelo trabalho. E reassista sem má vontade (só assisti True Detective por sua causa – como outras obras também – e não me lembro de tu ter reclamado da cena na época, tás ficando rabugento kkkk).
Cara, a cena é grotesca. Trapalhões perde.
Theo Angelopoulos tem os planos sequencia como marca de seu trabalho . Revi há pouco “O passo suspenso da cegonha” e o plano em que o protagonista aguarda a chegada de um trem enquanto observa uma vítima, suspensa por um guindaste, da violencia entre refugiados, e um grupo de mulheres que chora sua morte, é sensacional.
O “Children of Men” você pode até esquecer que é um sic-fi. É quase um filme contemporâneo, já.
Vale muito a pena tentar!
Darei uma chance!
O uso de drones em filmagens “facilitou” muito a brincadeira. E se juntar com CGI então, não há limites.
Pessoal abusa mesmo, mas o “1917” eu achei legal pra cacete.
Verdade, é tudo na mesma casa e um tanto teatral (que coreografia!), mas também com muito cuidado do Hitchcock quanto à parte cinematográfica da coisa: os movimentos de câmera fluidos e o timing para esconder os cortes. Filmão!
Não conheço a história de sucesso do Bad Out of Hell, o que eu sei é que é um álbum que até hj é dos mais vendidos da História e que, como eu já disse, já ouvi e achei um porre, qualquer dia, se quiser, escreva sobre o álbum….
E que a Elza Soares, uma enorme artista, descanse em paz pq ela merece!!!
Lembro também do plano sequência que abre o filme Boogie Nights do Paul Thomas Anderson, meu filme preferido do diretor
Maravilhoso.
Quando se vê a molecada falando muito de detalhes técnicos e pouco da trama de um filme, já sabe… às vezes parece que todos estão lendo um press release da Netflix.
Soy Cuba ainda não vi, mas os outros dois citados são sensacionais mesmo (Carlito’s Way merece mais reconhecimento).
Um diretor que acho que trabalha muito bem os planos sequência (tanto reais quanto digitais) é o Alfonso Cuarón: ‘Y tu mama también’, ‘Filhos da Esperança’, ‘Gravidade’, ‘Roma’… acho todos muito legais!
E não dá pra esquecer do ‘Festim Diabólico’ do Hitchock tb….
Amo “Rope”, mas é um tanto teatral, com toda a história passada num só ambiente, não?
André,
e o Lubezki? Se encaixa pra você nesses planos “forçados”, uma coisa apenas maneirista?
Eu acho a sequência final de “Filhos da Esperança” antológica. Na verdade, eu acho esse filme todo maravilhoso.
Abraço!
Cara, abominei “Birdman”, e o “Children of Men” não vi, tenho um problema seríssimo com ficção-científica, meu cérebro trava.
Uma das melhores séries policiais que assisti essa primeira temporada de True Detective, mas concordo com você Barça, quando vi essa cena a primeira vez achei estranho, como algo que me incomodava, e depois vendo os comentários dos analistas de youtube como falou, pensei comigo “nossa não entendo nada, porque não achei nada demais”.. A briga realmente é digno de sketch dos trapalhões. hehheheh. abraço,
ótimo post, como de costume. Seu comentário sobre analistas de youtube me fez lembrar de um canal já extinto que gosto muito, every frame a painting (não sei se conhece ou entra na sua categoria de analistas rasos ;). Mas esse vídeo em particular ele fala dos planos-sequências de média duração do Spielberg, entre 45 segundos a pouco menos de 2 minutos. Ele ressalta como esses planos “médios” não são tão destacados, mas podem ser muito bons para contar bem a história.
Cara, obrigado pela dica, não lembro de ter acessado.
O filme 1917 utiliza algumas vezes o recurso de fechar a imagem em um plano totalmente escuro e retornar em outro ponto. Dá a impressão que o cinegrafista precisa dar uma descansada…
Chama-se “esconder o corte”.
Muito legal
A cena de Carlito’s Way é genial. Outro dia zapeando a tv estava passando o filme e quase na cena. Pus para gravar e ver novamente. E fico pensando na cena de A marca da maldade feita com os equipamentos da época. Genial.
Amo muito o plano-sequência do final de Profissão: Repórter do Antonioni com o Jack Nicholson, quando a câmera estática começa no quarto (com o personagem ainda vivo), atravessa a grade da janela, dá todo um rolê na praça e depois volta pro quarto filmando de fora (com o personagem já falecido). É incrível!
Outro plano-sequência que gosto muito é o de À Meia-Noite Levarei sua Alma. São mais ou menos 5 minutos dos mais marcantes e assombrosos da história do cinema brasileiro.
Duas lembranças ótimas. O PS do Mojica vale lembrar que ele estava dirigindo o câmera enquanto atuava. Quando a câmera saía dele, o Mojica continuava a orientá-lo.
André, um OT: Dias de luto pesado na música, Elza Soares e Meat Loaf, artistas tão diferentes e bem-sucedidos em suas áreas de atuação (se bem que eu particularmente acho o Bat out of hell chatíssimo), e vc, o que achava deles?
Gostava demais da Elza e nem tanto do trabalho do Meat Loaf, embora a história do sucesso de “Bat Out of Hell” seja sensacional.
A cena de True Detective parece retirada de um game: ritmo, atuação, construção. Num game, uma cena como essa dá realismo a toda artificialidade que existe no ato de jogar. Mas num filme, ela oferece o oposto: é artificial, dura.
Concordo, parece game mesmo.
Concordo, o plano sequencia acabou virando uma forma de exibicionismo, para o cineasta mostrar que sabe filmar e tem repertório (Iñarritu que o diga). Acho genial o plano sequencia do Segredo de Seus Olhos, e o filme Bingo tem alguns bem interessantes.
a abertura de “o jogador”, do altman, é o primeiro que me vem à cabeça quando penso em plano-sequência. vi há séculos, lembro que fiquei impressionada.
Muito bem lembrado. Altman usava muito bem o recurso. Mas ele inovou mesmo na mixagem de som, não?
Tem um plano sequencia interessante (sem pretensão minha de avaliar a qualidade) em O segredo dos seus olhos. Parece ter hipérboles técnicas e dramáticas, mas até aí, é coerente com o resto do filme. Acho que vale conferir
Verdade, mas boa parte feito em computador, não?
o ultimo dos morriquenhos , Carlito Brigante
Carlito eterno.