Filme revela Neville D’Almeida, rebelde do cinema brasileiro
A plataforma MUBI exibe “Neville D’Almeida: Cronista da Beleza e do Caos”, documentário de Mario Abbade sobre o cineasta Neville D’Almeida.
Neville é uma figura única do cinema brasileiro, um “outsider” que, paradoxalmente, fez alguns dos filmes de maior bilheteria de nosso cinema, como “A Dama do Lotação” (1977), “Os Sete Gatinhos” (1980) e “Rio Babilônia” (1982).
Há dez anos, fiz uma entrevista com Neville para um projeto sobre a arte brasileira dos anos 1970. O projeto nunca foi pra frente, mas a entrevista foi ótima. Neville estava de bom humor, mas foi só o assunto chegar ao cinema brasileiro atual, que isso mudou drasticamente.
O diretor, que estava há mais de quatro anos tentando captar dinheiro para um filme inspirado em uma peça de Mario Bortolloto (finalmente lançado em 2015, “A Frente Fria Que a Chuva Traz”), soltou os bichos.
Tire as crianças da sala e confira as melhores partes:
“Eu vendi dez milhões de ingressos pro cinema brasileiro, fiz minha parte. Hoje só querem me punir, me desmerecer. Por causa dos meus filmes, dezenas de filmes brasileiros foram exibidos. Cansei de ver a Embrafilme dizendo: ‘Só te deixo passar ‘A Dama do Lotação’ se passar esses outros dez cus de touro que ninguém que ver’, era essa a política de distribuição na época. E aí, na esteira dos meus, passavam um monte de filmes de merda, alienados, falsificados, pseudocomunistas, pseudopolíticos, uns filmes falidos de um cinema político que, alguns anos depois, estavam totalmente superados…”
“A censura continua no Brasil, mas agora sob a forma dos patrocínios. Esses que controlam o cinema brasileiro, que eram os oprimidos, depois da Revolução passaram a ser opressores. Rolou – e rola até hoje – um patrulhamento contra o tipo de cinema que eu faço. É o preço da liberdade, e o preço do talento também. Só se vê por aí gente sem talento ou com pouco talento, ganhando premiozinhos. Tudo armação.”
“O Brasil tem mais de 150 festivais de cinema. É possível isso? É bom pro cinema brasileiro? Você quer ganhar dinheiro na cidade onde mora? É fácil: faz um festival de cinema! Convida o pessoal, pede um dinheirinho da prefeitura, um dinheirinho do Ministério da Cultura, pede pela Lei Rouanet. Esses festivais são dominados por famílias, são patriarcais, matriarcais, são feudais. Pergunto: se festival de cinema fosse mau negócio, haveria tantos por aí? Claro que não. Fazer festival com dinheiro dos outros é moleza: ‘Ai, vou a Nova York convidar um ator genial! Preciso ir a Paris convidar um ator amigo, o cara que me enrabou quando era garoto…’”
“Eu teria vergonha de fazer certos filmes que vejo por aí, de tão babacas. O cinema brasileiro hoje tem três vertentes: a primeira é aquela que quer copiar o cinema americano. A segunda – e maior – é aquela que só quer copiar novela da TV Globo. E a terceira é uma corrente voltada pro ego, mas um ego medíocre, de diretores que se metem a fazer o que não sabem (…) fazendo filmes sobre favela pra tentar expiar sua culpa.”
“Gosto do filme do José Padilha (“Tropa de Elite”), o sujeito fez um filme de grande comunicação com o público, durante seis meses não se falou em outra coisa no Brasil, achei genial.”
“Você quer fazer uma matéria bombástica, que vai ser capa de tudo quanto é jornal? É fácil: pega os últimos 20 anos do cinema brasileiro e faz uma lista de quem pegou mais, de quem ganhou mais editais. Você vai ver lá: L.C. Barreto – não sei quantos milhões – Paulo Thiago, Mariza Leão, não sei quem lá Meirelles, o Reichenbach… Faz a lista de quem mama nas tetas do governo, da esquerda… aí você vai entender as comissões das autarquias federais, da Petrobrás, Eletrobrás, e vai ver que é tudo carta marcada, tudo dominado por pequenos grupos. O Brasil é assim.”
“Virou monumento a cultura brasileira? Ou nós estamos sustentando esses caras? Os caras acham que o governo tem obrigação de sustentar eles, pra fazerem mais filmes fracassados, pra ajudarem mais os filhos, as filhas, os namorados das filhas, os caras que comem eles, os caras que comem as mulheres deles, as mães deles.”
“Existe hoje uma estrutura de mamar nas tetas do governo, e com isso o Brasil criou uma estrutura de produção irresponsável. Os preços dos filmes, que deveriam baixar, dobraram. Hoje em dia, quando se produz um filme, ele não precisa dar certo, sai tudo pago. No Brasil é assim: você pede 3 milhões pra fazer um filme. Aí o filme sai e é um fracasso total. Daí, em vez de enfiar a viola no saco, o sujeito faz outro filme, só que dessa vez pede 6 milhões. Aí o filme fracassa de novo, mas ganha lá um prêmio qualquer num festival – porque você sabe que festival aqui é feito pra isso, né, tem mais prêmio que filme – e o que o sujeito faz o quê? Resolve fazer outro filme, só que dessa vez pede 11 milhões.”
Atenção: até dia 20, estarei fora e em local com pouco acesso à Internet. Caso eu demore a responder a algum comentário ou e-mail, peço desculpas antecipadas.
11 comentários em "Filme revela Neville D’Almeida, rebelde do cinema brasileiro"
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Vi outro dia Matou a família e foi ao cinema. Acho o título, que não é dele, ótimo mas o filme é uma droga.
Ele refilmou, se lembro bem. O original é do Bressane, e é bem legal.
não sei quem lá Meirelles… hahaha!
Pois é, bem difícil dizer. Você concorda com ele?
Em alguns pontos sim, mas não com a “ênfase” dele. Que o processo de seleção de projetos no audiovisual brasileiro é viciado, acho que não há dúvida.
Eu entendo perfeitamente a crítica do Neville e também entendo que ele possa ter seus desafetos e sua crítica ser pouco isenta.
Mas essa questão dos editais e dos prêmios é algo que intriga. Longe de concordar com qualquer coisa que a atual gestão (?) da cultura tenha dito sobre a Lei Rouanet e afins, acho que passou da hora dos grandes produtores do cinema ou da música serem chamados às falas para assumir sua responsabilidade sobre a produção cultural brasileira como um projeto coletivo. Explico: o Barreto chama o Rodrigo Santoro para fazer um filme e claro que ele terá patrocínio e apoio privado, ainda que estejamos em tempos escassos. Contudo, o Zé da esquina não terá. Não está na hora da grana estatal na cultura – necessária e importante – ser mais capilarizada? A questão é que não podemos reproduzir uma casta privilegiada até na cultura.
Por esse ponto, concordo com a crítica do entrevistado.
Abraço, obrigado por compartilhar.
O Neville tem envergadura moral de disparar essas verdades, pois ele fez um cinema de arte que era sucesso de público, coisa que me parece, e a ele também, que virou um pecado capital entre os cineastas brasileiros, que pensam mais nos prêmios em festivais chinfrins do que em levar o povão ao cinema!!!!
O que acha das afirmações dele Barça?
Difícil dizer, porque o Neville tá no meio do cinema há muito tempo e certamente colecionou desafetos. Impossível saber se aquilo é opinião isenta, concorda?
Hahahaha o maluco era uma metralhadora. André, você tem essa entrevista na íntegra?
Sim, tenho a gravação.