“Nevermind”, 30 anos: como se explica esse fenômeno”?
Um dos álbuns mais importantes e influentes do rock está fazendo 30 anos: “Nevermind”, do Nirvana. Lançado em 24 de setembro de 1991, o disco marcou um período em que, pela primeira vez, o rock alternativo chegou ao “mainstream”.
O sucesso de “Nevermind” não foi imediato: lançado com uma tiragem pequena, sua vendagem foi aumentando gradualmente até explodir na semana do Natal de 1991, três meses depois do lançamento, quando vendeu 374 mil cópias nos Estados Unidos. Na edição da revista “Billboard” de 11 de janeiro de 1992, “Nevermind” chegou onde nenhum outro disco de banda alternativa havia chegado: ao topo da parada, desbancando “Dangerous”, de Michael Jackson.
Até hoje, “Nevermind” vendeu cerca de 30 milhões de cópias, sendo mais de um terço nos Estados Unidos. Isso era impensável na época. “Indie rock” não vendia. Só para ter uma ideia da diferença de expectativa, a gravadora Geffen havia colocado no mercado norte-americano, uma semana antes de “Nevermind”, pouco mais de 4 milhões de cópias dos álbuns “Use Your Illusion 1 e 2”, do Guns N’ Roses. O número era cem vezes maior que a tiragem inicial de “Nevermind”, lançado pela DGC, subsidiária da mesma Geffen.
O fenômeno “Nevermind” pode ser explicado por vários fatores. Em primeiro lugar, havia uma fenomenal geração de bandas do rock alternativo prestes a explodir. Red Hot Chili Peppers, Pearl Jam, Soundgarden, Alice in Chains, Smashing Pumpkins, Rage Against the Machine, Nine Inch Nails e muitas outras surgiram ou ficaram famosas no início dos anos 1990.
Antes dessa geração, havia poucos exemplos de bandas do circuito independente que fizeram sucesso comercial. Exceção para R.E.M. (os grandes pioneiros dessa cena toda), Faith No More e Jane’s Addiction.
Em 1991, a MTV tinha grande força comercial, e clipes desses grupos começaram a sair dos programas especializados em heavy metal e indie e aparecer na programação normal. As gravadoras, loucas para replicar o sucesso da Geffen com o Guns N’ Roses, que chegara ao topo da parada com seu álbum de estreia, “Appetite for Destruction” (1987), passaram a assinar bandas alternativas a rodo: a Warner contratou R.E.M., Jane’s Addiction, Faith No More (via uma subsidiária, a Slash) e tirou o Red Hot Chili Peppers da EMI; a A&M, ligada à Polygram, assinou o Soundgarden, e a Geffen contratou o Sonic Youth. Foi por causa da ida de seus ídolos, o Sonic Youth, para a Geffen, que Kurt Cobain topou assinar com o selo.
Nos Estados Unidos, as rádios comerciais passaram a acompanhar a tendência da MTV e tocar esses grupos ligados à cena alternativa, e isso também fez muita diferença. Antes de “Nevermind”, uma banda indie só conseguia lugar em emissoras independentes, muitas delas ligadas a universidades.
Todos esses fatores foram importantes, mas o que realmente explica o sucesso de “Nevermind” é a qualidade e acessibilidade das canções. O Nirvana aperfeiçoou o que bandas como Pixies tentavam fazer havia algum tempo: um rock com um pé no underground, mas que soasse “limpo” e acessível a todos. Por mais misteriosas e niilistas que fossem as letras de Cobain, a verdade é que “Nevermind” é um grande disco power-pop, uma coleção de músicas que agrada a qualquer um. E um dos principais responsáveis por essa “polidez” do álbum foi o engenheiro Andy Wallace, que mixou o disco.

Butch Vig, produtor de “Nevermind”, conta que a gravadora enviou uma lista de sugestões com vários engenheiros para a mixagem, incluindo Scott Litt, Ed Stasium, Don Gehman, Bob Cleramountain e Tom Lord Alge, mas quando Kurt viu o último nome da lista – “Andy Wallace / Slayer”, disse: “Vamos chamar ESSE cara!”
Quando “Nevermind” saiu, Kurt ficou muito feliz com o resultado. Foi só depois que o disco estourou e alguns amigos comentaram que ele tinha uma sonoridade bem mais comercial que o álbum de estreia da banda, “Bleach”, que Kurt passou a questionar o resultado e o trabalho de Vig e Wallace.
O fato é que “Nevermind” agradava a todo mundo. Lembro chegar aos Estados Unidos na semana de lançamento do disco e ouvi-lo por todo canto. Em qualquer loja de discos que eu entrasse, em São Francisco, Los Angeles, Nova Iorque, Chicago ou Seattle, o álbum estava tocando. Ele agradava a fãs de metal, punk e indie rock. Não havia quem não gostasse.
O estouro de “Nevermind” provocou uma segunda onda de contratações de bandas alternativas. Todo mundo assinou com uma “major”: Melvins, Mudhoney, TAD, Flaming Lips, Shonen Knife, Teenage Fanclub, Butthole Surfers e dezenas de outras. Foi só Kurt Cobain aparecer em fotos com uma camiseta do cantor Daniel Johnston que vários selos grandes se engalfinharam numa briga – vencida pela Atlantic – para assinar o cara.
A “era de ouro” do som alternativo durou pouco. O auge foi em 1994, com o imenso sucesso de discos de Beck, Green Day, Beastie Boys, Alice in Chains, Nine Inch Nails, Soudgarden, Hole e Weezer, e a explosão do “britpop” de Oasis e Blur, do outro lado do Atlântico. Mas o suicídio de Cobain e a ascensão de boy bands como New Kids on the Block e Boyz II Men, que inspiraria o surgimento de pesos-pesados como Backstreet Boys e N’Sync, além de ídolos teen como Britney Spears, marcariam uma nova fase na indústria da música.
24 comentários em "“Nevermind”, 30 anos: como se explica esse fenômeno”?"
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Não consigo negar q na voz e nas melodias do Kurt existe uma emoção funda e pop chicletinho ao mesmo tempo… em bases musicais simplérrimas mas muito eficientes pros ouvidos memorizarem. Tudo isso trazendo roupinhas meio trapo e fotos com olhar melancólico q transformam ele num garoto que precisa de atenção
É duro explicar esse disco. Vc conseguiu chegar o mais longe que já li em uma análise de NMind.
Mas ele precisava de atenção. Olha o que aconteceu…
Passando rápido aqui pra dizer que acho que identifiquei você no Blu Ray “Live at Paramount” do Nirvana. Muito legal!
Achei muito bacana a ênfase dada ao processo de produção do caos de Cobain. Embora não seja exatamente um apreciador, é inegável a importância do Nevermind, exatamente pela sua abrangência em influenciar diversos artistas e bandas,
E em fazer muita gente prestar atenção em rock alternativo, acho…
André, quem diria que o Nevermind agora é um adulto de 30 anos, ainda com muita lenha pra queimar!!!!
E qual sua faixa favorita desse clássico?
Acho que “On a Plain”…
É, Nevermind, era o disco certo na hora certa. MTV, cena borbulhando, demanda nas gravadoras… E é mesmo interessante como o disco tem uma contradição dentro dele. Ao mesmo tempo que é uma espécie de “reposta atrevida e provocadora” ao mainstream da época (aliás, o Nirvana como um todo) consegue se encaixar nele, como se tivesse sido pensado dessa forma (será que foi?). O Power-Pop que você cita.
ps: Lembrar dos 30 anos de um disco de uma banda, que encarnou bem esse espírito de ser banda, numa época em que , parece, a ideia de banda está se extinguindo, provoca uma nostalgia involuntária, mas bem vinda.
Bom dia André, muito bom o texto. Só um questionamento: o sucesso do New Kids On The Block é anterior ao grunge, final dos anos 80, início dos anos 90, correto? Acho que o Backstreet Boys e o N’Sync se encaixam melhor na sua descrição.
Tem razão, dá a impressão de que o NKOTB é posterior ao sucesso do Nirvana. O sucesso do NKOTB inspirou a indústria a lançar BBoys e N’Sync, mas isso não ficou claro no texto. Vou mudar no texto, obrigado.
Ter 19 anos e presenciar o nascimento dessa geração de bandas foi mágico, infelizmente é algo que as novas gerações nunca terão a oportunidade de experimentar.
Desde ontem 23, estou acompanhando tudo sobre essa data especial, a BBC 6 deu um grande destaque ontem para o disco e hoje então, nem se fala. Eu acho curioso Barcinski o pós Nevermind, como tudo que veio depois, curiosamente destoou do disco. Posso estar enganado, mas pós “in utero” a ressaca Grunge trouxe o britpop e até o meu adorado shoegaze foi esmagado. Quero dizer é: O Nevermind em si não chegou a influenciar musicalmente outras bandas? ele é único! posso estar enganado mas me peguei pensando nisso ouvindo o disco na integra novamente.
Acho que algumas bandas, tipo Bush, Radiohead do início, etc., foram muito influenciadas sim. “Creep” parece muito as músicas do “Nevermind”. Até “Song 2”, do Blur.
Barça, já vi em algum documentário o pessoal do Blur dizendo que Song 2 é uma paródia de Pixies, o que faz muito sentido.
Faz mesmo.
Bicho, as rádios pop nacional também tocaram pra caramba essas bandas, tipo como aqui as coisas são mais devagar durou meio que até 1995 eu acho, lembro do meu primeiro cd ser o Bleach que ganhei de um amigo que tinha grana e comprou achando ser o Nevermind como não tinha as “conhecidas” me deu o CD.
Já assistiu o documentário Hype? Ele fala sobre a invasão de bandas se mudando para Seatle na intenção de serem descobertos por alguma gravadora, é bem legal o doc e assisti no you tube mesmo.
Vi “Hype” na época, lembro ter gostado muito.
Comentário chatão, kkkkkkkk, mas o New Kids foi antes, em 90, porque minha irmã gostava, e já no ano seguinte era virou grunge, kkkkkk
E o processo do Spencer Elden sublinha a diferença entre aqueles tempos e os atuais….
Um dos anos mais loucos da minha adolescência. O livro Barulho. Uma locadora de CD´s na minha cidade natal e pilhas e pilhas de fitas k7 em decorrência das locações.
Fantástico
30 anos do Nevermind, caraca, me fez sentir o peso do tempo agora.
O Nirvana de forma instantânea virou uma banda clássica. Também não conhecia qualquer pessoa que gostasse de rock que não curtia o Nirvana. Lembro de episódios do Beavis e Butthead louvando o Nirvana como se fosse um Deus.
Foi um momento incrível de uma época maravilhosa pra quem curtia som alternativo e rock pesado. Uma coisa que me lembro bem e que vejo pouca gente comentar a respeito, é o fato de que o CD estava também começando a se popularizar no início dos anos 90. Àquela altura já tava todo mundo com pelo menos um CD player em casa. Acho que isso ajudou de alguma forma a indústria fonográfica de um modo geral e essas bandas todas por tabela.
Certeza, deu um gás em toda a indústria.