ago/2021

Motown: a fábrica de hits

Por André Barcinski

Motown: a fábrica de hits

Por André Barcinski

Nunca houve uma gravadora como a Motown. Pra começo de conversa, ela foi berço de pesos-pesados da black music como Stevie Wonder, Marvin Gaye, Smokey Robinson, Temptations, Diana Ross, Michael Jackson e tantos outros, e praticamente definiu a sonoridade da música negra norte-americana dos anos 1960.

Mas há um aspecto da história da Motown que vai além de sua música e que também destacou o selo em meio a uma fase gloriosa do pop mundial: o seu perfeccionismo.

O fundador da Motown, um gênio dos negócios chamado Berry Gordy, criou a gravadora em 1959 na cidade de Detroit, então o centro da indústria automobilística nos Estados Unidos. Gordy havia trabalhado na linha de montagem da Lincoln-Mercury e imaginou um selo musical que funcionasse como uma fábrica de carros, em que cada canção fosse “montada” por profissionais altamente especializados.

Gordy criou uma verdadeira “fábrica de hits”, com divisões especializadas na composição, arranjos, produção, gravação e marketing de cada música lançada pelo selo.

Em 2019, para comemorar os 60 anos da gravadora, a própria Motown produziu o documentário “Hitsville”, que pode ser visto no Globoplay. O filme traz entrevistas – inéditas ou de arquivo – com vários astros da gravadora, como Stevie Wonder, Martha Reeves, Mary Wilson e Diana Ross, além de depoimentos de fãs como Dr. Dre, John Legend e Neil Young.

O tom do filme é um tanto “chapa branca” e questões mais espinhosas, como as sabidas rusgas do selo com alguns de seus ícones, como Marvin Gaye e Stevie Wonder, quando esses fizeram discos mais politizados na virada dos anos 60 para os 70, são  abordadas apenas superficialmente, mas vale pelas maravilhosas imagens de arquivo e, principalmente, pelos áudios das reuniões  de produção.

Berry Gordy era tão controlador que gravava, em áudio, todas as reuniões com seu staff, em que eram discutidos os mínimos detalhes sobre cada música que a Motown decidia gravar. Nesses áudios, dá para ouvir compositores como Lamont Dozier e Eddie Holland analisando a qualidade de determinadas canções, e Gordy instruindo seu departamento de marketing sobre a maneira adequada de “vender” cada artista.

Para a Motown, gravar discos clássicos era só parte do trabalho. A gravadora metia a mão também na apresentação de seus artistas e tinha departamentos de figurino, coreografias, canto e até de etiqueta, para que seus contratados aprendessem a se comportar em público.

O resultado de tanto esforço foi uma coleção de LPs e compactos de uma sofisticação sonora insuperável e de composições, arranjos, produções e gravações absolutamente perfeitos.  Vale lembrar que muitos dos músicos profissionais que trabalhavam na Motown foram formados no então excelente sistema de ensino público de Detroit, uma cidade rica e que oferecia educação musical de alta qualidade nas escolas.

“Hitsville” é um documento importante sobre uma gravadora que simbolizou a era de ouro de uma cidade. E, no início dos anos 70, quando Gordy decide levar a Motown para Los Angeles, fica claro que Detroit não era mais a mesma.

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